Acho que não poderia haver despertar pior para quem estuda Direito Internacional. Para quem acredita na integração, na pacificação e, sobretudo, no diálogo internacional como forma evolução dos povos. É um grande desafio o de não querer jogar tudo para o alto, doutorado, pesquisa e fé.

 

Tenho consciência de que o poder de Trump será limitado, uma vez que mesmo dentro do partido Republicano ele encontra um certo isolamento. Obviamente eu estou com medo da gestão que ele encabeçará, mas acredito que minha maior frustração não venha diretamente do Trump presidente, mas sim do Trump eleito.

 

A eleição de Donald Trump simboliza a institucionalização do equívoco. Porque, por mais complexo que seja o cenário internacional contemporâneo, até esta madrugada ainda tínhamos a sensação (embora muitas vezes ilusória) de que os grandes equívocos eram atos isolados, embora por vezes sistemáticos, frutos de golpes, de grupos extremistas e de crime organizado.

 

Ainda tínhamos um certo conforto no fato de ter medo de atos marginais, de poderes não reconhecidos. Mas a eleição de Trump nos traz a estranha sensação de uma ameaça institucionalizada e legítima. A palavra medo ganhou conotações muito diferentes nesta manhã.

 

Nos foi enfiada goela abaixo uma definição muito distorcida do suposto terrorismo. Os países desenvolvidos associaram a noção de terror ao mundo árabe e venderam-nos a falsa ideia de que o terror sempre tem um berço definido, quando na verdade a imposição do medo como forma de pressão política costuma partir de qualquer lugar.

 

Meu grande mestre do Direito Internacional, Carlos Roberto Husek, escreve em seu Curso de Direito Internacional Público “Define-se o terrorismo pelo emprego sistemático da violência, como veículo de imposição da vontade para fins políticos.”. O quanto esta frase não se assemelha com a campanha que elegeu Donald Trump? Quem não vê um futuro governo deste indivíduo completamente harmônico ao conceito de terrorismo?

 

Precisamos lembrar que o Terror nasceu no ocidente, em meio à Revolução Francesa. O ocidente sempre soube impor muito bem suas vontades através do manejo do medo. O terrorismo é uma via de duas mãos, sempre tem ida e tem volta, causa e consequência, ato e contra-ato.

 

Trump ganhou as eleições norte americanas exatamente por seu discurso de ódio. O mesmo discurso que elege Bolsonaro e toda a extrema direita. O ódio e o terror são amigos de infância. Não acredito que Trump terá liberdade para cometer tantas atrocidades quanto tememos. Mas, sim, nós tememos. Temor. Terror. O nosso medo é exatamente porque temos, sim, a surpreendente e incômoda eleição de um presidente terrorista.