Chorar no banheiro até que é fácil, difícil mesmo é chorar no transporte público. Porque se a pessoa está chorando ali, é porque realmente não dava mais para segurar, não tinha saída. O choro do transporte público é o mais inevitável de todos: ele sobe do estômago, atravessa a garganta e causa formigamento no nariz, até ser derramado através dos olhos. Ninguém queria estar chorando ali.

 

Existe um código de conduta do choro no transporte público. A pessoa que acha que corre o risco chorar naquele trajeto, já entra tentando achar (mais do que nunca) um lugar na janela ou então um outro lugar mais reservado, no fundão do ônibus ou num cantinho do metrô. O mais importante é ser um assento no qual possamos apoiar a cabeça de lado, deixando que o olhar se perca no meio do nada enquanto aquelas lágrimas sofridas correm desenfreadas pelo nosso rosto.

 

Nesse código de conduta também está escrito que não devemos interferir no sofrimento alheio no transporte público. O máximo que se deve fazer é esboçar um sorrisinho de canto como quem diz “tamo junto, já passei por isso, também faço parte do grupo de Choradores Anônimos do Terminal João Dias”. Todavia, o choro de sofrimento não se confunde com o choro de desespero- o choro de desespero sempre pede interferência “cara, você precisa de alguma coisa?”, é uma questão de segurança pública.

 

O choro do transporte público tem essa grande vantagem que é o fato de não termos que nos explicar para ninguém. É uma prerrogativa especialmente útil para quem ainda mora com os pais ou para quem já tem filhos, já que chorar na frente deles costuma implicar em dezenas de explicações e justificativas e pretextos e soluçar “tá.tu.do.bem.não.se.pre.o.cu.pa” como se alguém acreditasse nisso. No transporte público não. Ali o choro é só seu.

 

Se tiver fone de ouvido, o choro se torna completo. Escolhemos a trilha sonora para embalar aquela dor:  thinking out loud, flutua, everybody hurts, infiel, tears in heaven. Depende da idade e do gosto musical.  Mas é preciso tomar cuidado, pois dependendo do grau do sofrimento e do volume da música, podemos começar a chorar alto, gemendo no vagão do trem e importunando os vizinhos de assento. Isso não pega bem.

 

O choro campeão do transporte público é o choro de pé. Aquele que não se importou com o transporte lotado, com ausência de lugar ou de apoio para a cabeça e que despenca ali mesmo, prensado entre uma senhora peituda de vestido florido e um jovem estudante andrógino de cabelo roxo. Esse é o choro que merece o respeito de todos nós porque é corajoso e indispensável.

 

Já chorei na linha vermelha, saindo da Barra Funda para baldear na Sé. Já chorei na linha azul enquanto as portas se fechavam na Praça da Árvore. Chorei no ponto, esperando o Terminal Parque Santo Antônio. Chorei no fundo do Terminal Capelinha, do Vila Albertina, do Ana Rosa e do Jardim Miriam. Hoje choro no Gomes Freire, no Restauradores e no Campo Mártires da Pátria. Velhos hábitos.

 

Digo e repito: o verdadeiro choro sofrido só acontece no transporte público. Outras dores podem até ser maiores, mas o choro dolorido em si mesmo, na própria existência, só existe no busão, no vagão e no ponto. O resto é para amadores. Todo meu respeito aos choradores convictos e inevitáveis. Tamo junto.

 

@lilybanse/unsplash