Sou mais uma dentre as irreversivelmente apaixonadas por Frida Kahlo.

Às vezes acho que conheço melhor a história da pintora mexicana do que a minha própria e me sinto mais íntima dos seus quadros do que dos meus textos.

Há anos me acostumo com aquele momento em que falo algo a respeito dela e alguém rebate “aquela feia? Do bigode e da monocelha?”.

Passei da fase de argumentar. Hoje só lamento o fato de alguém estar mais preocupado com sua cara do que com sua incrível obra.

Engraçado que também adoro Botero e, nesse caso, todos se lembram dos gordinhos de seus quadros, mas pouco se importam com o tipo físico do pintor.

Aliás, alguém deu bola para a barba interminável no auto retrato de Leonardo da Vinci? Ou alguém se incomoda mais com o excêntrico bigode de Salvador Dalí do que com os pelos faciais da Frida? Não, claro que não.

No atual contexto, cada vez mais próximos do mês de outubro, a realidade se repete.

Nunca ouvi ninguém questionar o topetinho do Aécio, o bigodão do Levy, a barba grisalha do Eduardo Jorge ou o tamanho das bochechas do Pastor Everaldo.

Mas Dilma, Marina e Luciana jamais passarão ilesas.

Quilos a mais ou a menos? Cabelo muito curto ou muito armado? Retocou a tintura? Tem bolsas abaixo dos olhos? E essa roupa, minha filha, que que é isso?

Não bastaria vencer o debate, não bastaria trazer boas propostas, não bastaria retidão de conduta. Teria que estar bonita, bem vestida, maquiada. Ou não. Porque se a candidata for bonita demais, capaz de dizerem que não transmite confiança pro eleitorado. É quase uma sina.

Seja o que for, nunca será boa o suficiente.

Cristina Kirchner, Angela Merkel, Graça Foster, a viúva do Eduardo Campos. Se vacilar, até Madre Teresa entra na jogada. Liberou o grisalho. Errou no botox. Tá magra demais. Esse corte de cabelo foi uma desgraça.

Nenhuma delas mandou curriculum para a Victoria’s Secrets. Nenhuma delas é blogueira de moda. Nenhuma delas tem um instagram de fitness. Nenhuma delas se propôs a viver de imagem ou de beleza.

Então será que podemos dizer que é só na propaganda de cerveja que a mulher segue sendo objeto?

Ou será que ainda nos arrastamos numa era na qual um homem que se propõe a falar sobre suas ideias é julgado exatamente por suas ideias e uma mulher que se propõe a falar sobre suas ideias é julgada, antes de tudo, por ser mulher velha/nova/feia/bonita/magra/gorda/chique/cafona/enrugada/plastificada

/ressecada/oleosa/maquiada/desleixada e, cerca de 50 léguas depois, eventualmente, julgada por suas ideias?

Para se candidatar à presidência é preciso ter coragem. Mas para se candidatar à presidência sendo mulher, é preciso de coragem elevada ao cubo. Por isso, independentemente de partidos e propostas, todo meu respeito por elas.

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