Por mais apaixonados que sejamos pelo Brasil e por mais que nós tenhamos orgulho da nossa cultura e do nosso astral, não está sendo mais viável fechar os olhos para o tamanho da ignorância e da truculência que vem dominando os discursos e os comportamentos de muitos milhares de brasileiros atualmente.

 

Parece-me que nunca pagamos tão caro pelas falhas na nossa educação de base. As pessoas não têm condições mínimas de avaliar a situação do país, não compreendem o básico acerca do cenário político e econômico, não entendem minimamente como funciona o Judiciário, não sabem dissociá-lo do Executivo, nem compreendem as funções do Legislativo.

 

Por outro lado, parece que muitos daqueles que tiverem acesso a educação de boa qualidade também optam pela via da ignorância. Não articulam argumentos, não estruturam ideias, não pensam nos seus discursos. Poderiam fazê-lo, mas não o fazem. Partem para o grito sem sentido e para a acusação sem fundamento.

 

Um país no qual- no ano de 2018 -pode-se ouvir pessoas defendendo a volta dos militares ao poder é um caso que beira o caos.  Vivemos, de acordo com a Constituição de 1988, num Estado Democrático de Direito, o que, por si, já exclui qualquer possibilidade de um regime militar. Trata-se de uma cláusula pétrea da Constituição, daquelas que não pode ser alterada por constituir uma base da nossa democracia.

 

O que vemos, no Brasil, são milhares de pessoas defendendo não apenas o inaceitável, mas também o inconstitucional. Defender algo inconstitucional é algo ainda mais grave do que defender o ilegal. Ir contra a Constituição é pior do que ir contra as leis. Contra uma cláusula pétrea, então, é algo vergonhoso e inadmissível. E, dentre as tantas aberrações que gritam no meu peito, vem a lembrança de que Michel Temer foi professor de Direito Constitucional na faculdade onde me formei.

 

Quando ouço as pessoas, sobretudo aquelas que pertencem à elite brasileira, elogiando o funcionamento do Estado no chamado “primeiro mundo”, percebo que, via de regra, trata-se de um grande engano. O Brasil, no fundo, não quer ser a Noruega nem o Canadá. Não quer a redução da desigualdade, a melhoria da educação para todos, o fim dos privilégios. Vemos, infelizmente, que o Brasil gosta é da manutenção dos privilégios, das brechas jurídicas, das vias de escape. O Brasil parece mesmo querer ser terceiro mundo. Ofensas à Constituição, redução dos direitos trabalhistas, militares no poder.

 

Meu amigo e colega Leandro Karnal, grande professor de história, afirmou numa entrevista “Não há como defender eticamente, moralmente, num plano mínimo de humanidade, uma intervenção militar. Nossos problemas foram piorados pela ditadura. É muito importante lembrar que não se deve nunca questionar a democracia, deve-se aperfeiçoá-la.”. Precisamos de mais?

 

Gostaria de pensar que as pessoas que pregam esses absurdos são todas realmente iletradas, que não sabem o que estão dizendo. Mas infelizmente não é isso que estamos vendo. A ignorância parece cada vez estar mais entranhada no Brasil, sem que haja diálogo, estudo ou reza brava capaz de derrubá-la.