Ao longo da vida, talvez por arrogância, talvez por pressão social, começamos a elencar dezenas de características ideais que esperamos encontrar num potencial parceiro. Precisa ser alto. Mas não pode ter mais de 1,85. Pode ser grisalho, mas não pode ser careca. Gosto de narizes com personalidade. Precisa ter no máximo 5 anos a mais que eu e até 2 a menos. É bom ter um trabalho estável e ser motivado. Também era importante que não morasse muito longe de mim. Deve gostar de viajar, de comer comida japonesa e de ler biografias.

 

De fato, esse período de trevas que o Brasil vem atravessando é ruim em muitíssimos aspectos. Mas não dá para negar que há um lado interessante: começamos a valorizar as pessoas que nos cercam por razões sobre as quais nunca havíamos refletido. Nunca ouvi nenhuma amiga minha dizer que seu parceiro (ou sua parceira) ideal deveria ser a favor da democracia e não deveria defender a tortura. Sei lá, a gente achava que isso já vinha incluído no pacote básico, não é mesmo?

 

Mas no meio dessa loucura toda, como diria Jout Jout, parece que pré-requisito virou diferencial. E coisas que sempre nos passaram batidas, passaram a merecer uma atenção- quiçá até uma gratidão- especial. Olhar para nossos parceiros e lembrar que são pessoas que se opõem à violência e à truculência, passou a ser um alívio imenso, quase um oásis no meio do caos.

 

Por isso, se eu pudesse, hoje, dar um conselho aos mais jovens- e a qualquer outro solteiro que esteja sassaricando por aí- ele seria: apaixone-se por alguém que defenda os direitos humanos. Alguém que compre briga pelas minorias às quais ele nem pertence. Uma pessoa que berre que tá todo mundo doido, que violência não se resolve com violência. Alguém que não tenha medo de se posicionar.

 

No fundo, a gente percebe o quão pouco importa a aparência física, a estabilidade do emprego, o endereço. De que adianta um belo par de olhos verdes, se eles não enxergam tudo o que está acontecendo? De que interessa um currículo fantástico se toda a formação e a experiência não serviram para ter análise crítica? De que interessa  um peitoral definido se dentro dele não tem empatia e solidariedade? De que adianta uma bela casa se dentro dela não se ouvem diálogos em defesa da democracia?

 

A verdade é que são tempos para a gente repensar muita coisa. Nossas prioridades, companhias, discursos e batalhas. Mas também é tempo de ser grato por cada dose de lucidez com a qual esbarramos nos nossos dias. Tempo de criar novos laços, frutos de uma identidade tão básica como a luta contra o retrocesso social.

 

Jovens, apaixonem-se por alguém que defenda os direitos humanos. E que se preocupe com os gays mesmo sem ser gay. E que defenda os índios sem precisar sem índio. E que tome as dores dos negros como suas, mesmo se for branco. E que lute pelos direitos das mulheres. E que defenda o Estado laico ao mesmo tempo que respeita a diversidade religiosa. E acolha os imigrantes. E que busque compreender os anseios das pessoas com deficiência. Vai por mim. Corpo bonito, dinheiro sobrando, vários diplomas, alta performance nos esportes. Nada disso pode ser mais delicioso do que chegar em casa e encontrar uma pessoa realmente legal deitadona no sofá.

 

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