No dia em que completo 27 anos me flagrei pensando como meras combinações de palavras, harmonizadas dentro de uma frase podem mexer tanto conosco. Escrever é mesmo uma responsabilidade sem tamanho.
Assustada com essa óbvia constatação, comecei a colecionar na cabeça algumas frases que mudaram minha forma de olhar para a vida. Algumas trouxeram alívio e leveza, outras angústia e receio, mas são todas frases que marcaram minha alma como se marca o gado com ferro quente.
Hoje me dei o presente de fugir um pouco da responsabilidade da escrita, delegando-a aos que o fazem com maestria. Hoje reúno aqui algumas frases das quais lembrei, quase todas conhecidas e ventiladas, de escritores quase óbvios, como sinal de que o mundo ainda tem bastante bom gosto…
O medo da entrega me foi subtraído com “A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.”, de Clarice Lispector.
A compreensão de que não podemos resolver tudo o que nossa alma pede veio com a simplicidade de “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.”, de Drummond
A importância do sofrimento para a escrita me foi confirmado por “Com as lágrimas do tempo e a cal da minha vida fiz o cimento da minha poesia.”, de Vinícius.
A certeza de que o medo da censura está todo dia sentadinho no meu ombro enquanto escrevo veio com “Ainda vai levar muito tempo até que uma mulher possa se sentar e escrever um livro sem encontrar um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar.”, de Virgínia Woolf.
O conforto de saber que todas as dores um dia sossegam no peito chegou com “Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a este artifício conseguimos suportar o passado.”, de Garcia Márquez.
A extrema importância do “foda-se” foi confirmada por “A vida é importante demais par ser levada a sério.”, de Oscar Wilde.
A eterna sede por poder ser mulher e ser livre na mesma frase e na mesma vida veio com “Que nada nos defina, que nada nos sujeite, que a liberdade seja nossa própria substância.”, de Simone de Beauvoir.
A ironia inevitável da vida me foi confirmada por “Encontre o que você ama e deixe que isso te mate”, de Bukowski.
Mas o impressionante frescor diário do amor veio celebrado por “Com ninguém te pareces desde que te amo”, de Neruda.
E a confirmação de que a vida intensa e as palavras sinceras fazem todo sentido veio com Fernando Pessoa com a simples e avassaladora “Meu coração é um balde despejado.”
E tudo o que peço nesse aniversário é que essa última frase siga fazendo tanto sentido quanto está fazendo hoje. Não preciso de mais.