6:30 da manhã, o despertador toca como o tiro da largada da corrida. Eu não entendo nada. Hoje é sábado? É sexta? Não, ainda é quarta. Ai Deus. Minha cama parece aquela piscina de 5 metros de profundidade dos saltos ornamentais, tento sair mas não alcanço a borda, fico balançando as pernas, afundando no meio das cobertas, nem tem escadinha na borda pra ajudar.

 

Levanto, finalmente, como um cavalo enfurecido que não está sabendo lidar com os obstáculos da prova de hipismo. Tropeço num par de sapatos, chuto o pé da mesinha, cai tudo, dou de cara com a porta do banheiro que eu achei que estava aberta, dou coice em quem falar comigo. Não faz nem 10 minutos que eu acordei e já estou mais puto do que um treinador chinês de halterofilismo.

 

Entro no banho e, de repente, lembro que marquei uma reunião às 8 da manhã. Começa então uma série de movimentos cravados no melhor estilo nado sincronizado. Estica os braços/enfia a roupa/pula dentro do sapato/estica o braço direito/ pendura a bolsa no braço/estica o outro braço/pega uma banana/abre a porta/segura o celular na orelha com o ombrinho/dá uns pulinhos para não perder o elevador.

 

No transporte público rola um tipo de partida de rugby: um monte de gente troglodita te atropelando e você segurando suas coisinhas, querendo apenas sobreviver até o seu destino. Olho para o relógio: 7:42. Penso no meu chefe. É uma mistura entre o treinador chinês e o jogador de rugby da outra equipe.

 

Chego no trabalho como uma ginasta correndo para tomar impulso. Dou um mortal para dentro do banheiro, lavo as mãos, lavo rosto, dou um mortal para trás para pegar a pasta na minha mesa, duplo twist carpado para a sala de reuniões, 8:01, quase levanto os dois braços, estufo o peito e viro pra lá e pra cá, para que aplaudam minha chegada.

 

Começa então a partida de tênis de mesa: você trouxe o relatório?/não, quem ia trazer o relatório era você/eu não, o Tavares me disse que você tinha os dados/mas a Maria Julia disse que você estava responsável por esse cliente/eu só trouxe os documentos/ eu só trouxe a proposta.

 

De tênis de mesa, a reunião se transforma em um tatame. Todo mundo se derrubando gentilmente. Aparecem umas informações desconhecidas que parecem espadas de esgrima, que começam a espetar sua barriga e te deixar meio em pânico. Mas você mantém sua cara amigável, que lembra um russo que faz arremesso de peso. A reunião demora mais que partida boa de tênis. Todo mundo exausto, se odiando um pouquinho, mas mantendo o espírito esportivo, “nos vemos no almoço!”.

 

Então vem o almoço. Foi dada a largada para o revezamento no self service. Quando você vê já está comendo lasanha com alface, filé de frango, purê de batata, linguiça calabresa, spaghetti, farofa, tomate, vagem, arroz, lentilha, feijão preto, strogonoff e polenta frita. Sai de lá com o porte perfeito para ir direto para uma luta greco romana.

 

Mas não. Volta para as lutas do trabalho mesmo. Judô com o Almeida do financeiro que esqueceu a sua fatura, karatê com o motoboy que esqueceu de trazer seus papéis, taekwondo com você mesmo que esqueceu a senha do servidor. Depois é driblar o chefe, driblar o sono, driblar o pão de mel na mesa ao lado que todo dia você pensa em roubar da Vanusa.

 

Chego em casa, pego a correspondência. Conta de luz, conta de água, conta do celular, fatura do cartão, nocaute. Arranco os sapatos numa fração de segundos. Olho para a cama e nem preciso da vara para fazer um salto majestoso em cima dela. Arremesso a roupa suja no cesto. Pela distância são 3 pontos. Aponto o controle remoto de pilha fraca com a minha melhor pontaria na direção da TV.  Canal de esporte. Não posso perder os jogos olímpicos. Eles só acontecem a cada 4 anos.