Outro dia olhei para nós

-em meio a tantos laços e esse pequeno emaranhado de nós-

E me veio Cazuza cantando

Sobre a sorte de um amor tranquilo

-daqueles só com riso, com cafuné e cochilo-

E, sabe? Eu não sei bem se é a nossa cara

Não sei se isso pode ser a gente,

Por mais que se insista,

Por mais que se tente

Mas fiquei pensando que seria bom

Se a gente fosse esse amor tranquilo

Com sabor de fruta mordida

Se a gente fosse amora colhida,

num saco cheio, com pelo menos meio quilo

Se a gente fosse manga madura

Com muito suco e pouco fiapo

Se a gente fosse zero briga e muito papo

Se a gente soubesse engolir mais sapo

E se a gente não implicasse

Com a forma do outro de dobrar guardanapo

Sim, sim era mesmo bom ser esse amor tranquilo

Balançando devagar, deitado na rede

Enrolando cabelos entre os dedos

Transbordando certeza, tão livre de medo

Era bom ser brisa fresca de manhã cedo

Era bom que não houvesse nenhum passado

Que não houvesse nenhum segredo

Mas há, mundo afora, quem seja assim?

Ser só rede, canção, fruta e brisa?

Sem sede, cansaço e alguma briga?

Será que há vidas conjuntas só de melodia

Da mais pura e certa garantia

Sem disputas por causa da pia

Por causa da visita da tia

Do atraso no fim do dia

Da água que está sempre muito quente, muito fria

Será que não haveria um certo tédio?

Nessa overdose de calmaria

Contra a qual não há remédio?

Eu não sei,

Porque continuo pensando na fruta mordida

Em matar a sede na saliva

E em ser todo o amor que houver nessa vida

Em ser seu pão,

Ser sua comida

Do jeitinho que a letra diz

Parece mesmo um esquema feliz

Mas ali, adiante, ela até lembra mais a gente

Falando em céu e inferno

Em mel e ferida

Nossas altas temperaturas no inverno

Nosso riso na volta, nossa pressa na ida

Ele fala em ser artista no convívio

E isso a gente sabe:

Ser sufoco e ser alívio

Ser o olho do furacão

Ser o sol em tarde de verão

Ser amor tormento,

Ser amor tranquilo

Ser nada além do amor da vida

Ser, sim, fruta mordida

Que pode ser azeda que nem limão

Que nem kiwi fora da estação

Mas que às vezes é pêssego

Gordo e doce, pingando no chão

Talvez a gente não seja

Só rede, só sossego e cochilo sereno

Porque, vira e mexe, o que somos

É pequena dose de veneno

Veneno que nunca mata,

Que nunca morre,

Que só sabe ser tão feroz

Quanto queimação e azia

Esse tal veneno anti monotonia

Somos veneno e somos antídoto

Eu com você, você comigo

Entre trapos e beijos

Entre isso e aquilo

Talvez a turbulência

Seja o nosso sinal de que, enfim,

Esse é o nosso amor tranquilo.