Ainda não se sabe muito acerca do caso da advogada que foi presa em Duque de Caxias durante uma audiência, depois de ser impedida de consultar a contestação apresentada pela parte contrária no processo. Todavia, o que já se sabe é mais do que suficiente: uma advogada- mulher e negra- foi presa em pleno exercício da sua função, o que é proibido por lei, exceto em caso de crime inafiançável, o que, evidentemente, não era o caso.

 

O Brasil atravessa tempos muito sombrios. Machismo, racismo e tantas outras condutas ilícitas de intolerância vão ganhando força nas ruas, nas redes sociais e até nos debates políticos. Comportamentos que até outro dia eram disfarçados passaram a ser escancarados sem qualquer tipo de constrangimento. Não tem como não ficar com medo.

 

Sou mais uma das mulheres que entrou numa faculdade de direito por ter o sonho de melhorar o mundo. Mais uma das que passaram 5 anos tentando estudar as leis e entender a justiça enquanto se esquivavam de piadas e comentários inoportunos que deveriam passar longe daquele ambiente, mas que estavam ali, presentes, dia após dia.

 

Nos tornamos advogadas por mérito próprio. Por enfiar a cara nos livros, sacrificar dias de sol e por passar noites em claro em busca da conquista da nossa carreira. E assim fizemos. Somos advogadas, que, assim como os homens advogados, encaram todos os desafios dessa profissão: o estudo constante, a carga excessiva de trabalho, a insegurança, os conflitos com clientes, os pagamentos que não recebemos, a convivência com aqueles que se julgam superiores a nós.

 

Todavia, por sermos mulheres, ganhamos desafios dobrados no exercício da advocacia- assim como em todas as outras esferas da nossa vida. Somos nós que precisamos falar mais alto para sermos ouvidas. Somos nós que somos chamadas de mocinha, de querida e de meu anjo em vez de sermos chamadas de doutora. Somos nós que vemos a ascendência dos advogados homens na carreira de um grande escritório ser muito mais fácil e rápida do que a nossa. Somos nós que ouvimos piadas machistas nos corredores e que recebemos sorrisinhos tortos de sócios, juízes, promotores, servidores, seguranças.

 

A mulher advogada é aquela que não é avaliada apenas pela sua carteira de ordem e pela peça processual que redige. É aquela que, além disso, será avaliada de acordo com a sua roupa, sua bolsa, seu corpo, seu cabelo, sua cor de pele, seu estado civil, seus filhos e sua capacidade de persistir. É aquela que, quando exige seus direitos, é insolente. Aquela que quando fala mais firme, é bruta. Aquela que quando, no seu direito, se nega juridicamente a acatar uma decisão, é atacada.

 

Se eu, como advogada branca, cercada de privilégios, já passo pelas coisas que passo, imagino o que vive uma advogada negra no seu dia a dia. As imagens da advogada Valéria dos Santos algemada dentro do fórum, gritando “eu quero trabalhar, eu tenho o direito de trabalhar” são tão doloridas e aviltantes quanto inaceitáveis. Temos alguma dúvida de que as coisas seriam diferentes se fosse um advogado, homem e branco? Nenhuma de nós pode permanecer em silêncio. Seguimos na luta, cansadas, mas sem perder a fé na noção de justiça. Estamos juntas.