E lá estava eu no bar, com um grupo de amigos. Alguns no time do namoro sossegado, outros do casamento com ou sem filhos, outros da solteirice bem resolvida, outros no time dos separados, divorciados e coisas do gênero. E eu super acho qualquer time lindo, desde que a pessoa esteja nele numa boa.

Mas havia alguns amigos visivelmente incomodados com as posições que ocupavam. Talvez, em especial, alguns dos separados ou divorciados. Provavelmente porque isso, por mais normal que seja, venha frequentemente acompanhado de um certo sentimento de frustração pelas coisas não terem saído bem como previsto. Normal, né?

Mas era interessante- e, em certa medida, angustiante- observar que as amigas separadas pareciam carregar fantasmas maiores do que os homens. Não que elas se importem mais do que eles ou eles menos do que elas. Mas porque elas sentem que seus prazos são curtos. Curtos para encontrar homens que se interessem por elas e não pelas de 25, curtos para pensar em ser mãe, para pensar em ser mãe de novo, curtos para cultivar aquele resto de esperança na vida a dois.

Não vou dizer que seus anseios são infundados. Não vou dizer “miga, sua loca, pára com isso, você tá fazendo tempestade em copo d’água!”. Eu super entendo. Talvez eu agisse exatamente da mesma forma nessas circunstâncias. Eu entendo mesmo e até me angustio um pouco junto com elas.

Eu entendo que é duro de manter a fé depois de tanta cabeçada que a gente dá. Entendo que tem pressão por todo lado. A que vem da gente. A que vem da família. A que vem do mundo. Entendo que haja cansaço. Que haja um certo desencanto. Que haja uma certa perda da capacidade de sonhar, de romancear, de idealizar, de esperar o futuro de braços abertos.

Mas sabe, amiga? Se eu pudesse te dizer alguma coisa, só diria “não se deixe amargar não”. Não tente ser a adolescente sonhadora dos 17, mas não se torne cética demais, ácida demais. Não digo isso pelo que os homens (ou quem quer que seja a pessoa com quem você gostaria de se relacionar) pode pensar. Não. Digo isso por você. Não se torne a pessoa resmungona, que não acredita em nada nem em ninguém, que diz que todo homem é igual, que fala mal dos relacionamentos. Você nunca quis ser isso.

Aproveite a maturidade que ganhou nas pancadarias da vida a seu favor. Não como cansaço, amargura, resignação. Tome isso como força, como redução do medo, como dose extra de coragem. Quem já caiu do alto e seguiu andando, não precisa mais ter medo de altura. Não olhe para seu passado como fardo, mas como escola. Não desacredite.

Minha mãe separou-se aos 34, tinha dois filhos, aos 36 encontrou meu pai, me teve com quase 39. Minha tia casou-se aos 43 com um suíço fantástico e eles tiveram vários gatinhos. Minha outra tia casou-se aos 46 com um americano e eles cruzam os EUA de moto juntos. Minha outra tia separou-se 44, encontrou um namorado fantástico com 50. A melhor amiga da minha mãe separou-se aos 39. Casou de novo aos 51. Separou-se outra vez aos 62. Agora está em Paris com as amigas, having the time of her life. Minha prima separou-se aos 33 e está radiante sozinha, mais bonita e bem humorada do que nunca.

Pode haver um desfecho que seja aquele que a gente espera. Mas que pode não ser o que a vida nos reserva. A gente só precisa estar aberta para o que a vida oferece. As ofertas sempre continuam, não há prazo de validade nas pessoas. Boas ofertas, péssimos negócios, sapatos um número maior, batom perfeito para o seu tom de pele, livros desconhecidos. Apenas não feche a porta. Apenas não abra a porta já disposta a dizer não. Apenas não diga sim com má vontade. Apenas abra a cortina devagarzinho. Abra a janela. Tem tanta coisa boa lá fora.

Tem céu azul, tem pastel de feira, picolé de coco, tem outros divorciados sentados no solzinho depois do almoço, tem solteirões em busca do que nunca acharam, tem gente procurando amigos para finalmente conhecer Machu Picchu nas férias. Tem tantas razões para não se deixar amargar. A principal segue sendo que você nunca quis deixar de ser doce. Então não deixe, amiga. O amargo nunca combinou com você. ♥