sotaque

Ilustração: Lucas Tonon

Não tem problema terrrrr sotaque. Pode terrrrrr. Não sei dionde surrrrgiu a ideia de que é feio. Quem disse? Porrrr que ocê tenta esconderrrrrrr e disfarrrrrrçarrrrr, replicano o jeito de falarrrrr das pessoas que criticam o jeito que ocê fala? Às veiz fica bão, às veiz forrrrçado demai, tanto que nóis perrrrrcebe que ocê não tá seno ocê. Tem que serrrrr ocê memo, sem verrrrrgonha de nada. Falarrrrrr do seu jeito, memo que isso signifique puxarrrrrrrrr tudo os erre do planeta. Puxo memo: porrrrrrrrta, porrrrrrteira, porrrrrrrrrtão.

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Quem nasce no interiorrrrrrrrr, tipo eu, faiz assim: compensa os exagero dos erre comeno os “esse”. Nóis num usa plural. É um cachorro, dois cachorro, trêis cachorro. Falta os “esse”, mais os cachorro tão tudo lá, pode contarrrrrrrr.

Enquanto os caipira ligam pouco pros “esse”, os carioca ama. Usam em tudo lugarrrrrrrr: no começo, no meio, no fim das palavra. Mas vira maishhhhhh. Fez é feishhhh meishhhmo. U carióaca éan cheio da giennnnga, aê – manda um “aê” logo na eantrada, purquean curtche falá com marra, aénnn. Já éann. Uish erreish também são diferentchishhh, maishh só uish que ficam nu meiu daish palavraishhh: eleish não são duishh que deixam enrolar a lieangua, tipoaan duishhh caipiraishhh. São “erreishh” maishhhh gulturaishhhhhh, saem raiiishhhpando daishhh nossaishhh garrrrrrgannntaishhh (morô?).

Outra manian de quem é do Riiiio éan eisshhhticar oish “ishhh” do Riiiiiio. Talveishhh pra deixar claro que no rio se nada. No Riiiiiiiio, se tudo. Carióacaishhh aieanda trocam o Ó pelo U em algumaishhh palavraish: não éan “colher”, éan “culher”. Carióaca não sai para comer, maish pra cumê.  Não assiste aoish jornaisshhh paulistaaish purque prefere  as nutíciaishhh do Riiio. E si fosse pra sair comprar bulacha, voltaria com bisssshhhcoito (“u que tá eisshhcritoan na embalagem?”).

U sutaque du minêro éan u mais guloso: não come sóan letraishhh. Come palavra meishhhmo, principalmente oishh diminutivoishh. Tudo fica curtin, pequeninin, arrastadin, entre um “trem” e outro dos tantos que o mineiro coloca nos trilhos da sua fala. Bonitin demais da conta, uai.

Lá onde faz mais friozin, no Sul, eles usam outro trem: o bah. Bah, mas qual o problema? Uai, nenhum. Tem quem fale uai, coma pão de queijo, tome leite. E há quem diga “bah”, ou “tchê”, que goste de churrasco e beba chimarrão. Tá tudo tri: tri bom, tri normal, tri suave.

Preocupa não, visse? Não se avexe mermo. Sótaque é a coisa marlinda, cabra da peste, esconde ele, não. Todo mundo tem, inclusive os paulistanos que, meoooooooo, juram falar tudo “cereto”, “perefeito”, negando esse “errezinho” pouco ordinário. Meooo, coreta essa. O paulistano não é língua mãe de lugar nenhum. É só mais um sotaque nesse Brasilzão lindo de modeus.