infancia

Ilustração: Lucas Tonon

Quando eu era criança, juro, joguei pela janela do carro todas as calcinhas e sutiãs novos que minha mãe tinha acabado de comprar. Voltávamos da loja, minha mãe dirigindo, eu no banco de trás, com a sacola cheia de lingeries ao meu lado e a vontade irrefreável de fazer um “caminho de migalhas” para não me perder. Acredita? Não? Tem mais: quando era criança, rabisquei com pedregulhos do jardim a traseira do carro zero do meu pai: a lata brilhante e escorregadia do automóvel era a lousa; as pedras, o giz; e eu, o infante professor, lecionando a uma garagem cheia de alunos interessados nos hieróglifos que eu tatuava na bunda do Chevrolet.
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“Você tem noção?” – perguntarei, certo de que ninguém mais seria capaz de algo mais ousado, mais serelepe, mais faceiro, mais pimpão.

Sempre vai ter – ou pelo menos alguém que pensa que é – o diferentão, o travesso, o malandro, o “ié, ié”, “o que apertava a campainha e saía correndo”. Sempre haverá alguém que não jogou fora as lingeries da própria mãe, mas que, fez pior: quebrou todos os bonequinhos do presépio da avó brincando de lutinha. Ou alguém que diga: “Riscar o carro do pai não é nada. E eu, que fiz minha irmã rolar abaixo 15 degraus da escada de casa e quebrar um braço por causa de um pega-pega?”.

Começar uma conversa com “quando eu era criança” é começar uma guerra. Preste atenção: o papo vai bem, é amistoso, até que, de repente, uma alma desavisada lança na roda a sentença belicosa, criando uma espécie de competição sem fim de quem era o mais sapeca, ou o mais fofo, de quem consegue surpreender mais com uma lembrança da infância compartilhada por outras pessoas do grupo de amigos.

Não é à toa que, uma vez aceso esse pavio, a disputa tende a durar minutos a fio, a menos que alguém hasteie a bandeira branca, pedindo arrego depois de esgotar todas as suas lembranças do baú da memória. Aconteceu recentemente comigo, em um almoço, quando uma amiga puxou o assunto ao entrarmos no restaurante. Rendeu até a hora da sobremesa, quando ainda discutíamos, afinal, quem daquela mesa teria sido a criança a mais terrível de todos os tempos. Não houve consenso.

Quase nunca vai ter, exatamente como quando, sabe-se lá por que, as pessoas começam a disputar quem é o mais velho – as pessoas gostam de disputar várias coisas. O que incomoda um pouco é que os mais obcecados por essa competição são os que geralmente regulam com a sua idade, mas querem, de qualquer maneira, se impor pela superioridade etária, pelos cabelos brancos que não têm, pela experiência não totalmente crua, mas mais pra mal-passada. “Isso é da sua época?”, costumam questionar, sabendo no fundo que a sua época é a mesma que a dele.

No fundo, no fundo mesmo, a verdade é que, tanto em um caso, quanto no outro, ainda somos um pouco crianças, disputando pelas pequenas lideranças da vida. Antes, queríamos ser donos dos brinquedos mais legais, ser o Power Ranger vermelho, ter os melhores superpoderes, ocupar os patamares mais privilegiados de uma sociedade cuja economia era baseada no acúmulo de tazzos. Hoje, ainda que sem querer, continuamos perseguindo as mesmas posições, desejando ser os diferentões dos tempos da brilhantina.

Não precisa ter essa pressão – de querer ser o mais levado, o mais bonitinho, nem o mais velho. Desencana dessa “competição natural”. A infância está lá só pra ser lembrada e fazer sorrir. E a vida, pra ser vivida, sem pressa de chegar no final.