Ilustração: Felipe Blanco

Dentro do relógio da sua cozinha, aposto, cabe muito mais do que 24 horas. Era só uma questão de boa vontade. Deixasse o 1 mais juntinho do 12, o 2 do 3, ficassem todos mais coladinhos um do outro e pronto: eu teria mais tempo pra escrever esta crônica, o Felipe, pra entregar a ilustração, e você, leitor, pra ler isso tudo, sem ter de se preocupar que está perdendo tempo com minhas minhocações atemporais.

Talvez até esteja mesmo – pra ler essa meia caraminhola, se você não é um Usain Bolt cult, deve ter gasto até aqui uns valiosos 25 segundos. Ora, em tempo sem tempo, qualquer tempo é tempo de encaixar a natação – que jamais cabe na agenda – ou o cineminha, sempre o primeiro da lista a rodar se o relógio apertar. Ele só aperta assim, de dentro pra fora, querendo jogar nas nossas costas a culpa pela falta de tempo. Dá um tempo, vai!

Mas ele não dá.

Levou anos se emperiquitando de penduricalhos pra paquerar o reloginho do microondas e depois, assim, sem mais, nem menos, teria que se embarangar? Nananinanoca. Tudo bem, relógios de microondas não são lá aquelas coisas, têm o péssimo cacoete de piscar… Mas e daí? Ele é tão da hora…

Quer dizer, não é! Aliás, se há uma coisa que os relógios não são são “da hora”. Lhes falta. Umas 12, pelo menos. O sol arderia por mais meio dia tranquilamente. A lua, faça-me um favor, ela é forte, aguentaria numa boa ficar pendurada no céu um tempinho a mais. E nós, impelidos pela antológica existência de atuns gigantes em latas anãs, não teríamos problema algum em chuchar mais tempo nos relógios, típicos pacotões de Ruffles cronológicos: de metade vento, metade tempo.

Não encho a pança com meia dúzia de batatas, bem como não consigo fazer tudo o que preciso com a miséria de 24 horas. Os dias voam, é tic tac aqui, é tic tac acolá, e tempo que é bom, só pra pire-paques: a agenda já está apinhada, você está atrasado pra reunião com o chefe, a crônica já devia estar no ar e, pra coroar, a natação se afogou de novo na piscina dos seus compromissos. Enfim, deixa pra amanhã, se der tempo.