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Ilustração: Felipe Blanco

Economistas moderninhos suspeitam que os jovens passaram a comprar mais óculos escuros depois da criação do Instagram, em 2010. De lá para cá, a timeline dos membros da comunidade científica viveu infestada de selfies de periguetes de Ray-Ban mandando beijinho.

 

Outra parte dos estudiosos acha, pra variar, que é reflexo do aquecimento global: uma maior incidência de raios ultravioleta seria capaz de elevar os níveis do oceano, bem como o de turbinar a procura por Chilli Beans. Obviamente a primeira faz muito mais sentido.

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Linguistas também estão debruçados sobre a causa. Começaram a estudar a possibilidade de abolir o termo “óculos de sol” do dicionário depois de terem visto uma senhora usando o acessório na chuva. Estão todos indignados. Ela disse que tinha “olhos de ressaca”, mas não ganhou a moral de ninguém, apesar da clara tentativa de sedução pela referência a Machado. Ainda mais porque também foi flagrada com seu Vogue no velório de uma subcelebridade. “Era para disfarçar o choro”. Chorou sem borrar a maquiagem. (#cigana#obliqua#dissumulada)

 

O comportamento dos usuários de óculos escuros revela que hoje em dia ser gato vale mais a pena do que sofrer pelo derretimento das geleiras, ou a sanidade das retinas. Sofrer dá pé de galinha. Enfeia, e gente feia não arrasa no Facebook. Poucos ficam gatos de verdade. Quem não tem a sensação de que estão pelo menos um pouco menos judiados. Prova maior disso é o Falcão, que até hoje nunca foi visto sem seus óculos de sol.

 

Outro dia andando na rua presenciei a mutação instantânea sofrida por uma mulher ao vestir seus óculos de sol. Morfou: era uma loira desengonçada sobre saltos que, de repente, passou a desfilar assim que cobriu os olhos com seu Prada pirata-10-leal-shing-ling. Era noite. Só testemunhou quem estava com as vistas livres.

 

Um amigo de um amigo contou que foi fazer o teste para ver qual era a mágica dos óculos escuros. Quando colocou, jurou de pé junto ter começado a ouvir “Born to be Wild” ao fundo, como se fosse uma trilha sonora. Seus movimentos então ficaram em slow motion. Estufou o peito, gingando mais os ombros em cada passada. Depois, virando a esquina, postou uma foto no Facebook mandando beijinho pra geral.

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