frio
Ilustração: Felipe Blanco

O frio dói. Começa pelo pé: de repente, ele desperta congelado, nu, sem a meia que, até a hora de dormir, estava lá bonitinha, mantendo-o aquecido e protegido dos perigos gelados do mundo. Há mais coisas entre nós e sete camadas de cobertor do que supõe nossa vã filosofia. Forças sombrias até hoje desconhecidas pela ciência operam na calada da noite, violentando membros inferiores indefesos. Nunca os culpados foram pegos, ou mesmo flagrados. Sabemos apenas que existem, pois continuam vitimando pés mundo afora.

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Não tem o que fazer. Quando nos damos conta, já estamos despidos. Nossos movimentos tornam-se então friamente calculados. Isso não é Chapolim. Esse é você, tentando capturar a meia, formando uma pinça com o dedão do pé congelado – evidentemente com a cautela necessária para não sofrer com as duras consequências de rolar numa cama exposta ao sereno polar. Entendedores entenderão: camas no inverno são temperamentais. Podem parecer um ninho quente e aconchegante do lado esquerdo, mas a menos de um palmo à direita, estão mais para a superfície congelada de uma lagoa da Patagônia.

No frio, tudo fica mais difícil. Acordar é impossível; trocar de roupa, um martírio; passar desodorante parece tortura – o jato gelado no sovaco já me fez repensar várias vezes se eu realmente tinha bons motivos para sair da cama.

Seria uma boa se as pessoas não fedessem no inverno. Decidiríamos tomar banho assim como se fosse uma ida ao cinema, ou um passeio no parque. Um mero lazer, refrescante e relaxante, resultado de nossas escolhas e não de nossa submissão a uma convenção social. Sim ao banho opcional de inverno. Alckmin curtiu. Essa ideia se proliferou aos quatro ventos faz tempo, pelo Orkut, época em que todo mundo também tinha um chuveiro elétrico. O banho quente era uma conquista. Exigia paciência e precisão ao girarmos o registro, que tinha de ser posicionado num ponto exato para nos dar a alegria merecida de cada dia. Fora dele, era só o sofrimento, vindo em forma espirros d’água congelantes chicoteando nossas costas. Isso antes do chuveiro a gás. Depois que inventaram, banho virou tipo uma droga: quem entra não quer sair; quem sai quer entrar de novo e ficar lá para sempre. Alckmin descurtiu.

O bom do frio é que ele abre o apetite. O ruim é que comer engorda. O frio engorda mais do que McDonalds. A culpa, no Mc, vem logo depois de um lanche, o refri e a batata. Mas nunca depois de um novo chocolatinho a que nos damos o direito no inverno, a cada hora, a cada perrengue. “Hoje está frio demais”, ou “O dia está muito estressante”, ou mesmo só um “Quer saber? Foda-se”. Tem justificativa melhor? Nota mental: de Bis em Bis nasceu um Fat Family.

Uma amiga me contou que a friaca também faz estragos no mercado de manicures. A mulherada, pelo que disse, se recusa a tirar a meia para fazer os pés. A notícia me causou surpresa: homem, para mim, era mais friorento. Na semana passada, enquanto tentava me proteger dos 10ºC de Curitiba com meu cachecol, as meninas se davam por satisfeitas com minissaias. Riam, festejavam, sem expressar qualquer desconforto com o vento que me cortava mesmo todo coberto. É difícil entender. Tudo é difícil. A vida, no frio, se complicada inteira. Quer saber? Me acordem quando o inverno acabar.