Nós, subscritos neste documento, não temos nada contra os moradores do Jardim Europa. Até temos divergências, grande parte delas sócio-econômicas, mas pela garantia da causa atual, vamos tratá-las hoje como resignações. Aceitaremos a ostentação da riqueza a cada esquina. Nos conformaremos com mansões, carros importados, chofer, coisas que não pertencem à realidade de gente diferenciada como a gente. Não protestaremos contra nada disso. Esperávamos só alguma coisa em troca, ou apenas que nos deixassem ser felizes comendo cachorro quente na fila de espera do museu. Nem a isso temos direito?

Nosso protesto é contra o protesto miado.

Doutor Abobrinha

Ilustração: Felipe Blanco

Qualquer evento, seja de qual gênero for, miará se for ruim. Festas serão um fiasco se a música for ruim. Churrasco será bom desde que haja cerveja suficiente para segurar o pessoal em casa mesmo depois de a carne, a farofa, o vinagrete e o pão terem terminado. Se não a vaca vai para o brejo.

Na semana passada, algumas senhoras da região nobre da capital apresentaram um projeto revolucionário fracassado desde a concepção. Disseram ter recolhido 150 assinaturas de integrantes da nobreza paulista contrários ao Museu da Imagem e do Som (MIS). Ouvimos numa outra ponta que, na verdade, eram só 10. Inventaram um número maior de adesões por vergonha muito provavelmente. Entendemos que nem todo mundo sabe protestar. Os moradores do Jardim Europa podem querer, o que não significa que saibam. Não se preocupem, nós compreendemos o fracasso. Fazer alarde é coisa de gente diferenciada.

Quem faz baderna bem sucedida, como nós, saberia muito bem que qualquer levante contra o Castelo-Rá-Tim-Bum não colaria. E não colou, como prova o abaixo–assinado erudito, porém miado, feito pelos paulistanos europeus. Ficaram putos com o sucesso da mostra do Castelo no MIS. Atraiu muitos de nós: éramos tantos que tomamos calçadas por onde a granfinagem desfila com os cachorros. As senhoras do Jardim Europa passaram a se atrasar para seus compromissos por causa do congestionamento provocado pelos ônibus que traziam mais gente diferenciada para ver o Nino, o Pedro, a Biba e o Zequinha. Por nossa causa, o vendedor de dogão começou a trabalhar em zona fechada de comércio de caviar.

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Respeitamos as queixas. Mas o mundo é assim mesmo, não dá para ser levado sempre na maciota. Nós, abaixo-assinados, vivemos reclamando que falta dinheiro, falta emprego, falta oportunidade, que o transporte é ruim, os impostos são altos. Fazemos protestos em todos esses casos e sempre conseguimos arrebanhar um montão de gente – grande parte das vezes mais do que 150, seguramente mais do que 10. Grandes atos são motivados por boas causas. Levantar-se contra o Castelo não nos parece uma delas.

Nós não repudiamos os assinantes do manifesto, que talvez nem saibam do que se trata a exposição, ou saibam e queiram derrubar o MIS para levantar um prédio de 100 andares (muaaaahhhh muaahhhhh muaahhhhhh!!!).

O QUE NÃO TOLERAMOS É GENTE QUE NÃO SABE SE MANIFESTAR!!!

Nós não estamos virando barricadas pelo Jardim Europa. Não estamos pichando paredes, saqueando lojas, mijando nas suas floreiras. Só estamos na fila, comendo cachorro quente, enquanto não chega a nossa vez para ver o Castelo que, na infância, víamos só na televisão.

 

São as reivindicações dos seguintes abaixo-assinados:

– Ricardo Chapola

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