cartaoIlustração: Felipe Blanco

Nada contra o apego a tradições, desde que elas tenham ao menos alguma simbologia. A maioria delas não têm. Meu pai, por exemplo, faz compras e paga tudo no talão de cheques. Isso representa só duas coisas:

1) que ele é um tiozão da resistência à onda moderninha;

2)  que nasceu pronto para frequentar o Sujinho.

O Sujinho é um restaurante de São Paulo popular pela comida, pelo funcionamento quase full-time e por manter um costume um tanto quanto, digamos, irritante: não aceitar cartão.

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Mesmo assim, o lugar está sempre lotado, tanto de pessoas iguais ao meu pai – entusiastas do papel moeda – quanto iguais a mim – que abdicou do uso do dinheiro depois de descobrir que é possível viver sem ter que lidar com moedas.

Clientes da segunda categoria sofrem mais. Nós nunca estamos preparados ao receber os inesperados convites para uma cerveja no Sujinho. Quando acontece, é certo: carteiras vazias. Há duas opções: desistir ou não. A opção mais fácil é desistir. Não falta em São Paulo lugar  que aceite cartão. Mas, às vezes, possuídos pelo desejo de uma bisteca, somos nobres guerreiros a enfrentar distâncias broxantes na busca de qualquer caixa 24h.

Tudo isso foi em vão: a braveza, a luta, o suor derramado pelo dinheiro. Não era preciso. E jamais deve ter sido. O Sujinho passa cartão. Passaram o meu, na semana passada, quando percebi que estava sem dinheiro depois de já ter enchido a cara e a barriga. Ó, taquí a nota:

CANHOTO

Liguei lá mais tarde perguntando se o Sujinho tinha resolvido ficar descolado. “Só aceitamos dinheiro ou cheque, senhor”, me explicou Francisco, o gerente do restaurante. “Cartão apenas em caso de emergência”, emendou o funcionário.

Eu apenas ri, chacoalhando o canhoto do outro lado da linha, orgulhoso da minha conquista. Não tem mais como escapar. Sujou de vez.