3x4

Ilustração: Lucas Tonon

Nunca foi a intenção de ninguém ficar horroroso na carteira de motorista, no crachá do trabalho, ou nas fichas de inscrição de vestibular.  Muito pelo contrário: se dependesse de nós, estaríamos muito mais bonitos nesses lugares. São nossos perfis em forma de papel e nada mais justo que tivéssemos poder sobre eles, inclusive botando lá nossos melhores ângulos, os cliques mais caprichados, com um sorriso sincero, óculos escuros, fazendo biquinho. Tirássemos uma selfie, talvez tudo seria menos pior, menos forçado, menos opressor. Pena que não há opção: é uma 3×4 ou nada feito.

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Podiam então parar de pedir fotos assim das pessoas. São feias demais. Elas não nos representam. Reproduzem uma realidade distorcida que até tem os seus defeitos, embora nunca tão gritantes quanto os contidos naquele pequeno pedaço de papel.

Merece um prêmio quem consegue ficar bem, bem mesmo, nessa modalidade fotográfica. Não é para qualquer um. Requer beleza, beleza de verdade. Quem fica gato em foto 3×4 é porque é bonito de verdade. Lindeza legítima é aquela que resiste a esses disparos. Falo sem exagero. Ontem mesmo, conversando com uns amigos sobre o assunto, constatei: nenhum se salvava nas fotos que estampavam as CNHs.

Quer conhecer todos os defeitos de alguém? Pois bem: peça uma foto 3×4. Estará tudo lá, na mais fiel exatidão. Olhos desalinhados, uma vesguices nunca antes percebida, orelhas de abano. Assimetrias fazem parte, mas não precisava ser tanta. Uma amiga me mostrou que tem uma narina menor que a outra. Pelo menos isso ela conseguiu esconder na foto da carteira de motorista.

Muitas outras coisas jogam contra a beleza ao se produzir uma foto 3×4. O clima de tensão, por exemplo. A gente nunca sabe se é ou não para sorrir. Há quem reclame que ao esboçar um sorriso discreto no rosto foi duramente repreendido pelo fotógrafo. Comigo nunca aconteceu.  Ficou sempre o impasse, o desejo de atenuar os defeitos com um sorriso, rapidamente reprimido pelo pensamento: “mas vai ficar meio ridículo. Melhor  não”. Você mal sai de cima do muro e já terminou. O resultado é esse aí que estamos vendo: nós, com o semblante meio nem lá, nem cá, a cara da incerteza.

A luz também desfavorece. Até agora não entendi muito bem o porquê de tantos holofotes, mesmo em lugares bem iluminados. Às vezes penso que seja apenas ostentação. Quando era pequeno, me impressionava com a parafernália toda das fotóticas. Hoje fico preocupado: quanto mais focos de luz, mais brilhante ficarei. E isso é péssimo, um pouco nojento na verdade. Ninguém curte sair na foto parecendo que não toma banho há uns dias.

Isso também vai depender de sua posição no banquinho – quase sempre pequeno, sem encosto, megadesconfortável. Conforme-se: você nunca estará do jeito que o fotógrafo quer. A pose almejada é algo meio impossível de fazer: coluna reta, uma ligeira inclinação com a cabeça, olhando para a frente sempre com a dúvida sobre o sorriso. Depois de te colocar em posição, o fotógrafo dará as costas para retornar ao seu posto, tempo suficiente para você  não estar mais como ele gostaria . Então o fotógrafo repetirá todo o processo, uma, duas, três, quatro vezes, até se cansar e tirar a foto do jeito que der mesmo, tendo a cara de pau ainda de dizer que ficou “muito bom”. Aham, senta lá, Cláudia. Quer enganar quem? Bom só se for porque não vai ser ele quem vai ficar com essa cara estampada em lugar nenhum.

Mesmo assim vai ter gente ainda pedindo uma foto 3×4 sua para guardar na carteira. Não dá para entender. Ou até dê, considerando que quem faça isso sejam as nossas próprias mães. Elas sempre vão te achar um arraso. Obrigado, mãe, sério, mas não precisa mostrar pra ninguém, tá? Promete?