Macaquinhos

 Ilustração: Felipe Blanco

Uma gostosa passou pelada na calçada sem ser percebida. As pessoas só ficaram sabendo um dia depois, quando viram a notícia pelo celular. Os héteros solteiros – e alguns casados – lamentaram ter perdido a cena. Estavam jogando Candy Crush na hora H.

 

O amor tomou o ônibus, mas sequer foi notado. A moça estava tagarelando com a amiga pelo Whatsapp, enquanto o rapaz coçava a tela do iPhone à procura da música “Where is the love”, do Black Eyed Peas. Mal se olharam durante o percurso. Ela desceu no primeiro ponto, ele, no próximo. Os dois nunca mais se encontraram. O amor morreu no terminal.

________________________________

_________________________________

Os jornais noticiaram esta semana que o número de pessoas com problemas de coluna aumentou por causa do uso excessivo de celular. Bem feito. Torcicolo só se for por justa causa: travesseiro novo. Qualquer outra resulta em condutas médicas mais severas: o corte do Facebook no celular, ou a morte. Não queria dizer, mas as reportagens omitiram a lista de mortos, todos vítimas corcundas da resistência.

 

A outra merda do celular é que ele faz a gente pisar na merda. Pisar na merda é uma merda, ainda mais quando você sabe que estava olhando justamente para o chão ao pisar nela. Shakespeare diria que há mais coisas entre o chão e a merda do que pode imaginar nossa vã filosofia. Ele morreu sem dizer quais são, mas suponho que uma delas seja o celular.

 

Evite olhar muito para baixo, a vida não acontece ali. Para baixo está o chão e, no chão, só dá merda. A vida acontece à frente, pros lados, e por que não dizer, até para trás. Nunca antes na história deste País o brasileiro esteve tão conectado na internet. Nunca antes na história desse País o brasileiro esteve tão desconectado da realidade.

 

Precisamos urgentemente erguer a cabeça, ou, na melhor das hipóteses, vamos viver com os pés sujos. Nem precisa dizer de quê.

_______________________________

_________________________________