corretor

 

Ilustração: Felipe Blanco

Era “pai”, mas saiu “pau”. O corretor ortográfico é rápido no gatilho. Quando você vê, já foi: o estrago está feito. “Já viu o tamanho do meu pau?”, propus ingenuamente a uma amiga, até me dar conta da barbaridade que havia cometido sem querer, depois que os dois tiquezinhos já estavam azuis. O papo era sobre estaturas – de pessoas, no caso, não de parte delas, como gostaria o corretor. O assunto parece ser uma de suas obsessões. Ele vê pênis em tudo: no “ponto” enxerga um “pinto”; na “dica”, uma  “pica”. Para analistas, só Freud explica.

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O apagador apaga, o acendedor acende, o aparador apara, o aquecedor aquece. Aplique esse raciocínio a qualquer coisa, menos ao corretor ortográfico – que não corrige, embora, pela lógica, devesse. Parece mentira, parece um paradoxo, mas a verdade é que o principal papel de um corretor ortográfico é errar. Faz a gente escorregar até mesmo na hora de xingar alguém, como se estivesse nos segurando pelos dedos. “VOCÊ É CHATO PRA CARVALHO”, escrevi em caixa alta uma vez, crente de que o falo estaria presente, desempenhando pomposamente sua função sintática de advérbio de intensidade, sem nenhuma censura. Olhando direito, pouco depois, noto: encarvalharam a genitália.

Suas tentativas de nos conduzir aos países baixos toda hora acontecem em qualquer contexto, seja com quem for. Duas garotinhas que mal saíram da pureza de suas cascas correriam sérios riscos ao conversarem sobre o primeiro beijo pelo celular. Conheceriam a realidade nua e crua de forma precoce e antecipada. Esse é o ritmo dado às coisas depois que o corretor assumiu o cargo de cicerone do mundo cão. “Ele veio e colocou a linguiça na minha boca”, dizia a mensagem da menina que, cândida, referia-se à estranheza de ter a língua de uma outra pessoa enroscando na sua.

Alguns erros são aceitáveis. São aqueles que não carregam consigo qualquer maldade. Acontecem por simples desleixo, por pressa, displicência, ou mesmo por ignorância. Crianças costumam praticá-los com frequência. Tornam-se, por isso, engraçadinhos. Falhas assim acontecem, são naturais, bonitinhas, diferentes das lambanças do corretor ortográfico. Ele é malicioso, quer o nosso mal. Cuidado – que Regina não tomou. E acabou ficando péssima quando soube do que estava sendo chamada nos grupos fechados de Whatsapp  por esse mundão. “E a vagina, tudo bem com ela?”.

Não adianta remar contra a correnteza. Quem é ardiloso tem a mente poluída. Funciona do mesmo jeito com o corretor ortográfico. Já tentaram salvá-lo da devassidão, lavando suas teclinhas com sabão. Mesmo assim, o danado permanece do lado negro da força, trocando “exótico” pelo “erótico” sempre que pode, principalmente para sentir o gosto de constranger os outros. “Amanhã vou estar no cio”, tamborilou uma moça no celular, cheia da boa intenção ao avisar sua amiga que estaria no Rio no dia seguinte.

O corretor ortográfico tem a gana de manipular. Quer, além de tudo,controlar nossos desejos, dando cada vez mais pinta de que é o ditador da nova geração.  Bruna só queria chegar ao Horto, onde morava a prima. O corretor não: impunha o aborto. “Prima, estou chegando no aborto”.

Dá pra ser livre da opressão. Basta desligar o corretor ortográfico, sem medo de ser feliz. É melhor errar por si só. Qualquer coisa, bote a culpa nos dedos gordos. Eles resvalam mesmo num monte de tecla. Vai sair muita merda, mas nada comparado às façanhas do corretor. As novas desculpas colam mais que as antigas. Vai por mim. Errar assim é melhor. Abaixo a ditadura do errador ortográfico.