pizza

 

Ilustração: Felipe Blanco

Je ne suis pas calor. Je suis frio. Je seria calor se trabalhasse à beira da piscina, bebendo “uns bons drink”. Meu chefe até curtiu a ideia, mas lembrou que em piscina vazia não boia ninguém. Sem água, achou melhor também cortar a bebida. Ressaca na seca não rola. Miou o esquema. Je suis triste agora.

Mentira, já estava borocoxô. O bode dura três meses. O tempo do verão. Depois passa. É só o outono chegar.

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A antipatia pelo calor começou na escola. Foi quando aprendi que os seres vivos suam para regular a temperatura do corpo. Menos eu, que era uma espécie de fonte natural de água salobra.  Suava muito, a qualquer hora, fazendo qualquer coisa. Especialmente pelas axilas, onde sempre ostentei majestosas pizzas – jamais as brotinhos. Foi quando aprendi para que servia o sovaco: cagoetar meu calor ao mundo, causando o maior constrangimento possível. A sabedoria custa caro, às vezes a nossa própria dignidade.

Algumas coisas não mudam: o governador de São Paulo e minha disfunção sudorípara são duas delas. Vinte anos de PSDB secaram o Cantareira, apontando que o banho pode acabar a partir de março. A notícia preocupa a categoria dos pizzaiolos, que já organiza um protesto pela manutenção da chuveirada, ou pela liberação dos banhos de caneco.

O que mais me revolta é a desigualdade transpiratória desse País. Temo que algum dia extremistas da pizza ataquem executivos elegantemente secos que caminham ao meio dia na Faria Lima.  Os jornais revelariam no dia seguinte que os rebeldes entenderam que a camisa, o terno e a gravata secos na região do sovaco eram provocações.

A classe estuda, como represália, abolir o uso de roupas formais em dias letivos. Certos bancos já tem gente indo trabalhar de bermuda. Na redação do Estado também. O clima hostil fez com que uma ala masculina voltasse a cogitar tirar as saias do armário.

Estou aflito. Os banhos estão em perigo. Apagões ameaçam minhas noites de amor com o ventilador. Colegas mais fogosos perderão ménages com o ar-condicionado. No verão, a água acaba. A luz acaba. O amor acaba. Só a pizza que não.

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