Ilustração: Felipe Blanco

São Pedro e São Paulo num boteco, lavando roupa suja:

 

– Desembucha, Paulão: o que tá pegando? Nem me venha com história sobre chuva que disso eu também estou por aqui.

 

– Pois é, Pedro. No começo era só um trololó qualquer, mas agora o problema tá lá, dentro de casa, acometendo toda torneira que vê pela frente. Sabe há quanto tempo que meu pessoal não consegue tomar um banho decente? Já aconteceu de ficarmos sem água durante um dia todo, dois, até três. Tem como manter a calma, Pedro? Me diz. E olha que nem estou reclamando de ficar fedido por algum tempo. Os panos umedecidos, afinal de contas, devem estar aí para isso, tirar catinga. Estou falando de não ter água para beber. Beber, Pedro! Passaremos sede, ou teremos de sobreviver com água Lindoya de agora em diante. Aliás, já viu quanto está o galão? Um roubo! É o fim, Pedro, o fim!

 

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Enquanto São Paulo regava a goela, São Pedro quis contemporizar.

 

– Fique calmo. Vai passar. Já encomendei a chuva, está para chegar. Deve ter pego algum bloqueio de ar pela frente, sabe como é. Tempos de aquecimento global, desequilíbrios climáticos, fatores que fogem dos meus poderes.

 

– Você é santo, Pedro, qual é? Está de sacanagem.

 

– Claro que não. Veja aqui a nota fiscal – afirmou, desdobrando o comprovante da túnica.

 

– Fria?

 

– Quentíssima, rapaz! Me respeite!

 

– Como é que é? Você corta a nossa água e vem falar em respeito? Deus tá vendo, Pedro! Quer perder o trampo por justa causa? A essa altura, Ele já deve ter recebido reclamações direto no ramal, sem passar pelo seu gabinete. Falo isso, pois eu mesmo vi, com meus próprios olhos. Cansaram de rogar a você. Dizem até que você está fazendo vista grossa para os clamores do povo. Rezam a São Pedro por chuva e nada ganham. Dançam por chuva e nada ganham. E você: necas de pitipiribas. Fez nada, sumiu, escafedeu-se.

 

– Deixe de asneira, Paulo! O Chefe sabe muito bem o pepino que tenho de resolver. Escreveu uma carta em solidariedade, colocando-se a disposição se a parada engrossar, a crise agravar, ou se as nuvens entrarem em greve. Foi super gente boa, como sempre. Sabe muito bem que a culpa não é minha, que estou pelejando atrás de água. Sabe que estou sendo pressionado e disse até que injustamente. É injusto pois Ele sabe, como você também deveria saber, que é bom sempre ter uma reserva em casa. Vai que dá xabu qualquer hora. Neste ano deu, eu não sou perfeito. Se fosse seria Chefe. Onde foi parar toda aquela água que mandei a você? Sumiu. Tire isso da minha conta, Paulo. Está claro no regimento: “uma vez enviada ao seu destino, a chuva deixa de ser responsabilidade do produtor e passa a ser do beneficiário”. Dando nome aos bois: eu produzo, você se beneficia. Ou ainda: faça o que bem entender com ela. Esbanje, represe, beba, desperdice. Acabou, acabou. Problema de gestão, não divino.

 

– Muito me admira o senhor, passando toda a bucha para mim. Saiba que da nossa parte nunca faltou gerência. Atuamos o tempo inteiro, levando água a todo mundo com excelência. Construímos barragens, estávamos levantando outras. Mas não chove! E nós ainda não temos essa habilidade, Pedro. Quem tem é você. Resistia em aceitar isso, mas pelo visto você é petista mesmo.

 

São Pedro engasgou-se enquanto bebia, dando um salto para frente ao ouvir o amigo. Recomposto, levantou a voz:

 

– E daí? Já votei mesmo na Dilma, qual o problema? E por causa disso deixei quem não votou sem água? Dê uma olhada sobre seu muro, veja seus vizinhos. Santa Catarina me ligou agradecendo pela chuva. Conspirar a esse ponto, Paulo?

 

– Você votou na Dilma? Não acredito! E no segundo turno, vai de quê? Aécio, né? – questionou, certo de que o amigo tinha revisto conceitos.

 

– Dilma de novo, óbvio – disse Pedro, convicto.

 

– Você é louco. A mulher acabando com o País, trucidando a economia, enterrando a principal empresa do País. Não vê a barbaridade?

 

– Vejo, mas ainda assim prefiro deixar como está.

 

– Seu petista!

 

– Seu tucano!

 

Viraram as costas e não se falaram mais até o dia 26 de outubro.

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