Amanhã de manhã, vou pedir um café pra nós dois e depois, eu juro, palavra de escoteiro, vou para a academia. O despertador está para às 6h, exatamente o horário que me lembro que dormir é bom e, poxa, o dia vai ser barra, melhor deixar a malhação pra amanhã. Isso, melhor. Fecho os olhos pegando carona logo no primeiro carneirinho que passar antes da cerca.

 

Ilustração: Felipe Blanco

Não se mate, Ricardo, sossegue o facho. A academia é isso que você está vendo: hoje são pernas, amanhã é domingo, dia de meter o pé na jaca, e segunda-feira ninguém sabe, só você, que terá de queimar a feijoada do dia anterior, além de cumprir o resto do programa: costas, flexões, abdominais. Primeiro: dia sim, dia não. Depois direto. Cansa só de imaginar. É preciso mais coragem. Amanhã devo tê-la. Amanhã começo, prometo.

 

Amanhã, outro dia, lua sai, academia, abraça o Ricardo que vive no bar, bebe, enche a cara e só faz engordar. Leve-o ao bom caminho: dê-lhe halteres, em vez de copos cheios, um tanquinho no lugar da pochete. Possua-o. Vicie-o. Vença-o. Não hoje. Poupe-o pelo menos um dia. Ressaca, sabe como é. A qualidade do ar também está péssima. Muito calor. Muito seco. Circunstâncias ótimas para mau humor. Amanhã.

 

Hoje? Isso, hoje. Então é hoje, falou tá falado, não tem discussão. Antes que mais gente fale de lado, ou resolva desviar o olhar do chão para minha balança, vamos lá, pegar firme no batente. Começa pela caminhada pra não estranhar. Nossa, você já está suando. Calma, reduz o passo. Pronto, caminhe por 5 minutos. Agora trote um pouquinho, por mais 5. Já deu? Não, quase, falta um pouquinho. E agora? 2 e 14. Foi? Segura firme: bateu 3 agora. Capricha,mantém agora, é o finalzinho. Para, para, parou! Suado, ofegante, saio da esteira já me sentindo mais marombado. Na frente do espelho, ensaiando uns muques, a flexão do meu eu denuncia: suado, ofegante, pareço que fui atropelado. Chega por hoje. Continuo amanhã. Tem de ser de pouco em pouco, de grão em grão – pra, no caso, perder o papo.

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Amanhã tem cãibra, não dá. Tá doendo tudo. Pensar dói. Gosto de ostentar a dor pós-academia por ai como se fosse o Cauã Reymond desfilando sem camisa pelo calçadão de Copacabana. Nunca funcionou.

 

Então depois de amanhã: quinta-feira. Não, quinta é dia de terminar a crônica, sem chance. Escrever cansa tanto quanto cinco minutos de trote na esteira. Aliás, parei na corrida da última vez. Depois tem um pouco de bicicleta, com uns alongamentos. Sexta, tá decidido. Não, pera. Sexta já é amanhã? Ferrou, tenho compromisso. Vai ver é porque não rendo em dias que caem em números primos. Ou talvez porque seja sexta, quase sábado, e fim de semana foi feito pra relaxar. Mas não sei, não é isso. É algo importante. Deixa pra lá, amanhã às 6h saberei de tudo.

 

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