natal

 

Ilustração: Felipe Blanco

Querido Papai Noel,

Beleza? Faz um tempo que a gente não se fala. Devem ter sido uns 20 Natais pelas minhas contas. Não mudei muito e suponho que o senhor também não. Talvez tenha ganhado uns quilinhos tanto quanto eu, mas relaxa: quando eu deixei de acreditar no senhor ganhei um Total Shape do meu pai que resolveu minha vida em questão de uma, duas semanas.

O senhor deve estar se perguntando o motivo da carta depois de tantos anos de sumiço. Vou jogar a real: não acreditava mais em você. De repente passei a desconfiar dos velhinhos rechonchudos vestidos de vermelho nas portas dos shoppings, distribuindo balas. Cada um tinha uma voz. Uns tinham a barba ligeiramente amarelada. Os olhos deles viviam mudando de cor, dependendo se eu estivesse no Center Norte ou no Higienópolis. Colecionando tantas evidências contrárias a minha crença natalina, decidi então sucumbir ao ceticismo. Papai Noel, você não existiria mais.

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Foi um erro. Podemos negociar depois as punições aplicáveis a mim pela infidelidade. O senhor agora deve estar se perguntando como voltei a acreditar em Papai Noel assim, da noite para o dia. Simples: com a mesma sagacidade que usei para desmascarar seus sósias, conclui que não acreditar nas coisas faz com que elas realmente aconteçam.

Não que acreditar no senhor fosse algo ruim. Muito pelo contrário. Acontece que eu também não acreditava que, um dia, a gente pudesse ficar sem água. Estamos quase.  Se demorasse um pouco mais para decidir se enviaria ou não a carta, o banho já não faria mais parte da cultura paulistana. Também tinha dúvidas se o Brasil seria campeão da Copa. Se tivesse voltado a acreditar em Papai Noel já naquela época, talvez a seleção tomasse só uns 4 da Alemanha. Uns 2 se, somado a isso, o Neymar tivesse jogado.

Jamais imaginaria que alguém fosse capaz de falar que uma pessoa merecesse ser estuprada. Há quem diga isso hoje sendo pago com dinheiro público. Por essas e outras, Papai Noel, resolvi que vale muito mais a pena acreditar no senhor.

Pode ser uma solução um tanto simplista, infantil até. Mas volta e meia o que mais desejo é voltar a ver o mundo com o olhar de uma criança, que não desconfia do velhinho rechonchudo nas portas do shopping, nem creia que a pistolinha de água um dia vá deixar de existir. O senhor me aceita de volta? Os biscoitos e o leite estão na mesa da sala, próximos à árvore. Pode comer sossegado que é tudo integral, tá?

Um abraço saudoso
Ricardo

PS: preciso de um computador novo. Acha que rola? Feliz Natal!

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