Participei de alguns atos das chamadas Jornadas de Junho no ano passado, protestando pelo mesmo que os coxinhas, os croquetes, os risoles e as bolinhas de queijo. Vi amigos petistas dando as mãos a amigos tucanos, todos cansados de tudo aquilo que estava aí. Aqui, naquela época, tínhamos Alckmin, como agora, e Dilma, como agora.

 

Ilustração: Felipe Blanco

Pouca coisa mudou desde a última vez que o gigante acordou, dia daquela belíssima esbórnia suprapartidária. Voltou a hibernar pouco depois, despertando outra vez recentemente – e, pelo visto, de mau humor. Não houve festa, cortaram os salgados, meus amigos romperam. Foi uma merda. E continuou uma merda. E ainda está uma merda.

No ano passado também tinha merda. Pouca, mas tinha. Foi o suficiente para dar no que deu. Hoje o que não falta é adubo para novos arroubos revolucionários. As pessoas sempre negam. Eu insisto em não querer acreditar. Mas o que parece é que foi tudo mesmo só pelos 20 centavos. Com eles no bolso, a Petrobrás ficou suja, a água secou e só o que dizem é que folia com Heineken e coxinha é coisa de playboy. Brahma e espetinho, de pobre. Lacoste é coisa de direita. Camisa xadrez, esquerda.

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Esse tipo de pensamento se alastrou pelo País. Os nervos estão à flor da pele. Nas ruas, quem votou em Aécio é esnobado por quem votou na Dilma, que é xingado por quem votou no Alckmin, que é hostilizado por quem foi de Padilha. No domingo, depois do resultado, um gordinho deixava o diretório do PSDB de São Paulo aborrecido, com todo o direito. Um carro cheio de petistas passou em sua frente, buzinando freneticamente, com todo o direito. Os dois começaram se atacar, um sendo chamado de pobre e o outro de gordinho filho da puta, como se renda ou excesso de peso significassem alguma coisa na vitória ou na derrota de alguém.

 

Nem o Facebook salva. As listas com “os 10 livros prediletos de Sheila Melo” sumiram. Os testes também: desapareceram. O espaço foi todo preenchido pelas asneiras ditas no mundo real, variando a um grau sempre pior. Pais discutem com filhos, recriminando-os pela suposta rebeldia exacerbada. Gente tendo lampejos separatistas em um País que convive com as desigualdades desde a sua descoberta. Notícias mentirosas, gozações desmedidas, preconceito.

 

Saudade dos selfies, das fotos de comida, da futilidade irritante do Facebook. Saudade de ver as patricinhas e barbudos da FFLCH se pegando, sem que se preocupassem com o número que cada um colocou na urna. Saudade de quando a passagem de ônibus era capaz de unir todos os corações. A paz não custa nada. Nem mesmo 20 centavos.

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