Por Angélica Sales
 
O homem por trás da programação da 8ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que terminou no último domingo, tem apenas 32 anos e nunca escreveu um romance. Mas isso, em nenhum momento, atrapalhou o jornalista Flávio Moura, curador do evento desde 2008, nas negociações que trouxeram ao Brasil grandes expoentes da literatura mundial. Paulistano, Moura considera sua cidade “vibrante, dinâmica e interessante”. Mas sentencia: “São Paulo não comportaria um evento como a Flip”. Na semana passada, durante o festival, atendeu a Revista JT. Veja trechos de sua entrevista:
 
AFlip deste ano foi um pouco contestada por ter menos autores literários e mais acadêmicos. Como vê essas críticas?
Eu quis fazer, dentro das limitações de um evento como a Flip, uma homenagem consistente ao (escritor e sociólogo) Gilberto Freyre. Tinha de chamar as pessoas mais adequadas para falar, e elas não são necessariamente escritoras. Além disso, apesar de as pessoas terem se acostumado a, todo ano, ver uma mesa com três autores jovens, que estão se lançando, não vou deixar de chamar um autor porque ele já participou do festival antes. Na verdade, a Flip mexe um pouco com a vaidade das pessoas. Então é natural que quem não foi convidado se ressinta disso.
 
Quais autores você gostaria de homenagear em outras edições do festival?
Há vários autores brasileiros que nunca foram homenageados e que certamente serão um dia, como o Carlos Drummond de Andrade, o Graciliano Ramos, o João Cabral de Melo Neto…
 
Quem gostaria de convidar?
Tem um sonho antigo da Flip que é o (romancista americano) Phillip Roth. Mas é irreal, porque alguns autores simplesmente não levam em consideração esse tipo de convite. Não é porque é o Brasil, não é porque é a Flip. Eles não vão a lugar algum, não participam desse tipo de evento público.
 
Pense em escritores vivos ou mortos, brasileiros ou não. A quais debates você assistiria da primeira fila?
São muitos, hein? Mas basta pegar a lista de homenageados da Flip até agora: Vinícius de Moraes, Jorge Amado, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Manuel Bandeira e Gilberto Freyre. Entre os estrangeiros, eu também pegaria a lista de quem já veio, como Martin Amis, Ian McEwan, Julian Barnes, Don DeLillo, Paul Auster, Cees Nooteboom, António Lobo Antunes, Fernando Vallejo… Eu estaria na primeira fila de todos eles!
 
Qual o último livro que leu, gostou e recomendaria?
Gostei muito, muito de “Pornopopéia”, do Reinaldo Moraes (Editora Objetiva). Esse eu recomendo com ênfase.
 
Um evento como a Flip poderia acontecer em SP?
De maneira nenhuma. Em São Paulo, dá para ter palestras, eventos pontuais. Mas essa coisa do convívio durante 3, 4 dias… não daria. A cidade não permite isso.
 
Você é paulistano. Do que mais gosta na cidade?
Moro em Higienópolis e caminho muito por ali, não tenho carro. Podendo não ficar no trânsito e estando numa região que tem muitos serviços e um pouco de verde, como lá, dá para achar em São Paulo um nicho de vida bem agradável. E acho que a cidade está num momento muito legal, muito vibrante. Não moraria em nenhum outro lugar do Brasil. Apesar de todos os problemas, como trânsito, barulho e poluição, é um momento bom para se viver em São Paulo.