arte: loro verz

– A senha é cachorrinho123.

– Cachorrinho um-dois-três? – retruquei, atordoado. – Senha do quê? Como assim?

Por um momento me senti em um daqueles estabelecimentos pretensamente secretos, cobertos em certa névoa mafiosa, que povoam filmes de qualidade dúbia. Parecia que estava prestes a entrar em um cassino clandestino, bordel de luxo ou boca de fumo.

Mas não, era um inocente, iluminado e asséptico pet shop.

O atendente sorriu em seu avental branco e pacientemente explicou. “O senhor pode assistir pela internet ao banho do seu cachorro. Basta acessar o nosso site e digitar essa senha aí. Faz o maior sucesso com os clientes. Cachorrinho123. Tudo caixa baixa.”

Voltei para casa num misto de surpresa e curiosidade. “Quem assiste a um banho do cachorro pela internet?”, pensei. Que terrível violação de privacidade! Um voyeurismo despropositado.

Acessei o site. Estava lá a pobre Canela, amarrada sobre a mesa metálica, esperando a sua vez de ser esfregada e resfregada pelas mãos hábeis do atendente (em cujo crachá se lia dog groomer). Aquela mesma Canela, coitada, que me ensinara tanto, nos últimos meses, sobre a vida. Transformada em bits e bytes na minha tela.

Os cachorros são animais inteligentes, já não tenho dúvidas disso. Leais, companheiros. Mas o que eu aprendi de verdade com meu pug foi uma lição sobre primeiras vezes. A magia das primeiras vezes – e, de alguma forma, como conservá-la à prova daquele cinismo em que tudo, entre nós, frequentemente deságua.

Amo cachorros – e, entre os cachorros, essa pequena que me acompanha (não gosto de dizer “é minha”, prefiro pensar que está aqui por vontade própria).

Passeando por aí com a Canela, vamos trombando, sempre, numa dezena de outros cães. O comportamento é típico: ela primeiro empaca (êxtase e espanto) a cerca de 20 metros do outro bichinho. Aproxima-se então lentamente. Olhar fixo.

Focinho, orelhas, rabo, o corpo inteiro prepara-se para aquele encontro, como se fosse algo absolutamente inédito, um momento histórico só comparável à chegada do Homem à Lua. Então começa a rodear o alvo, cheirar, ensaiar um longo jogo de avanços e recuos.

É assim com todos os cachorros que encontramos, sempre, sem importar credo, cor, porte, raça. Todos têm tratamento especial; único.
É como a aproximação entre duas crianças. Todo aquele bonito e delicado ritual (que eventualmente se perde).

Os cachorros conservam, melhor do que os homens, assombramentos e virtudes. E uma certa dignidade espontânea que, canina, renova-se a cada instante.

Tive uma epifania e fechei o computador antes que o bicho entrasse na banheira. Se primeiro viesse o voyeurismo do banho à distância, depois o que? A praticidade de alimentar o animalzinho apertando um botão, quem sabe brincar e afagar ao toque de uma tela.

Corri: haveria tempo de salvá-la?

“Devolvam já o meu cachorro”, gritei, logo à entrada da loja.

De longe ela me ouviu e latiu. Alívio: era o bicho de verdade.

Ainda não virara um tamagotchi.