arte: loro verz

 

»No início da aula de narrativa, peço aos caros alunos que se “definam”. A provocação é clara, ainda que insolúvel: escreva um ou dois parágrafos respondendo a esta questão: quem sou eu?

Sempre me furtei de responder, eu mesmo, ao chamado da monstruosa angústia. Definir-se é limitar-se, e ninguém gosta de se limitar a meia dúzia de possibilidades – ou de papéis.

Dito isso, observo que a narrativa dos alunos segue um padrão genérico: nome, idade, cidade de origem, relacionamentos com familiares e namorados, e, enfim, as paixões variadas, a miscelânea de interesses individuais e intransferíveis que vão de astrologia a futebol, de música a gastronomia japonesa, de memórias de um passado itinerante a projeções de um futuro potencial.

“Meu nome é Maria, tenho 20 anos, sou paulistana, moro com meus pais e dois irmãos e amo minha família e meu namorado. Gosto de esportes, sou corintiana [ou são-paulina], frequento estádios de futebol desde os oito anos de idade, sou louca por culinária italiana e gosto de séries de televisão, especialmente de “Friends”, que revejo sempre.”

Assim é Maria, por Maria.

Será só isso? Antes: e se não fosse nada disso?

É difícil, senão impensável, separar uma pessoa de sua narrativa sobre si própria. Será que a hipotética Maria, Maria narrativa, é essencialmente uma pessoa que gosta de macarronada e “Friends” ou apenas circunstancialmente aprecia essas coisas? Isso a define?

Titubeia.

Não há resposta fácil. Obviamente, Maria constrói uma narrativa conforme a audiência e conforme sua experiência de vida (e de narrativas) e se coloca no mundo como corintiana-família tradicional-caseira. Então ela é realmente isso, inclusive no próprio entendimento.

Ao mesmo tempo, a narrativa construída poderia ser outra; poderia incluir, por exemplo, interesse por  filmes de ação. Ou literatura. Uma Maria expansiva, extrovertida, ou tímida, deprimida. Seria outra Maria narrativa, mas uma mesma Maria-carne-osso.

Em síntese, construímos narrativas que nos constroem. A vida imita a arte narrativa, que imita a vida, numa espiral apertada, densa, inquebrantável.

Este texto começa numa aula. E o que é uma aula? Sua narrativa é popular e de fácil apreensão: tantas pessoas presentes, o professor falante, atividades didáticas. Mas, se a narrativa da aula é baseada na aula em si, por óbvio, esquecemos que a aula-em-si também é baseada numa narrativa. Há anteriormente a qualquer aula uma narrativa do que é a entidade “aula”: deve haver um professor com certa postura, alunos com certo decoro, uma lousa, conteúdos expressos. A aula é o que é porque narraram a aula como é (ou deveria). Ovo e galinha, linguagem e pensamento.

Somos seres de linguagem. O homem, sem sua linguagem e comunicação, perde sua consciência e capacidade de expressão, perde sua capacidade de se relacionar com o outro e com o mundo, sua referência de tudo e de si.

Mais do que isso, somos seres de narrativa: a narrativa é a roupa que vestimos, dia após dia, para nos situarmos em sociedade – mais profundamente, para darmos sentido à vida, à nossa existência, mesmo na solidão de nossos quartos.

Sair da cama toda e cada manhã exige portanto uma bela, sólida narrativa.

Assim, Maria dizer sou corintiana [ou são-paulina] equivale, portanto, a encontrar um significado e um lugar no mundo: junto àquele grupo de pessoas que se classificam como corintianas e agem segundo a narrativa de tal. Isso provisoriamente conforta.

Às vezes para bem, às vezes para mal.

Não basta dizer, portanto, aproveite a vida, aja com sabedoria, escreva uma linda história de vida.

É preciso antes escolher bem, diariamente, a própria narrativa.

Quem é você?«

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