arte: loro verz

»Sendo a Páscoa a ressurreição, desço ao porão para visitar os esqueletos do armário. Não há melhor época. Limpo a casa cuidadosamente, arrasto o sofá, tiro os livros da estante um a um, lustro a prataria e deixo os vidros invisíveis novamente. É hora de descer ao porão.

Aquilo que não ressuscita, fermenta. Apodrece lentamente, junta todo tipo de bicho e, no fim, espalha estranhas doenças pelo ar. Soube de gente que, tendo trancado tudo o que julgava morto no porão do porão do porão de casa, um belo dia, sem aviso prévio, muitos anos depois do crime perfeito, veio a padecer de moléstias terríveis.

Toma tempo para que um cadáver decomponha, atraia os vetores que incubarão vírus e bactérias, mas é um processo certo como a noite: abandonados, os mortos assombram os vivos.

É Páscoa, é tempo dos vivos e de viver. Preparo antes toda a casa, acendo velas e incensos, desço as escadas empoeiradas cantando uma canção. Passo o espanador no corrimão, lustro os degraus de madeira. Chego à porta pesada. Pergunta: trouxeste a chave? Está sempre comigo. Puxo a correntinha que vai até o coração e dela retiro a minúscula chave dourada. Entro.

As coisas já não estão tão más, aqui embaixo. Tenho descido com mais e mais frequência. Todos os corpos abandonados apodrecem, mas os corpos com quem dançamos de tempos em tempos mantém um estranho e fascinante viço. Eu vejo a minha agressividade trincando dentes, o meu egoísmo examinando o teto, minha luxúria coçando os braços, minha intolerância exercitando seus músculos, meu ciúme diante do espelho, minha preguiça prostrada na cama.

Mas as coisas não estão tão más. Tenho tentado descer todas as semanas para a cerimônia de ressurreição – para a nossa Páscoa particular. No começo, tinha muito, muito medo de ficar preso no porão, confinado com toda aquela sombra estranha e desagradável. Medo dos marginais, dos riscos à sociedade, dos riscos à minha integridade.

Depois de uma ou duas vezes lá, contudo, quando fui forçado a trocar um ou outro fusível, quando fui forçado a ver de onde vinha o cheiro esquisito, aprendi que não havia risco em descer, abrir as janelas, bater papo, tomar um café. Quem sabe, uma cerveja. Quem sabe, dançar.

Com o tempo, o aspecto deles melhorou – e o meu. Melhoraram pele, cabelo, sorrisos. Melhorou a coragem, sobretudo, e a paz se espalhou pela casa feito o perfume de um incenso.

Desci no domingo, levando chocolates.

Fizemos uma Páscoa particular

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