arte: loro verz

»Em viagem ao Japão, fui dos primeiros a recepcionar o Ano Novo – campeoníssimo, ao menos, entre os meus amigos, que se dividiram entre São Paulo, Curitiba e Florianópolis.
Mas, passada a nuvem turva do fuso horário, que torna arrastados os primeiros dias (que eram noites) e as primeiras noites (que eram dias), percebi, enfim, que não eram apenas os ponteiros do relógio que teimavam andar à frente, bem à frente, do que meu corpo e mente estavam acostumados. Por mais que fosse custoso admitir, meu amigo nipo-brasileiro estava certo: se há um conjunto específico de valores que prezamos pelo nome de civilização, é no Japão que a vida parece ser mais civilizada.
Mas essa conquista e suas facilidades nem bem são desfrutadas pelo turista brasileiro: ele logo pergunta por que não pode ter algo disso em seu próprio país. Rapidamente, então, a mágica se opera, e o máximo se torna mínimo. Passamos, sem alarde nem cerimônia, do espanto com as ruas muito limpas, com os cidadãos muito educados e empenhados em ajudar, com a honestidade dos que fazem questão de devolver qualquer objeto encontrado à cruel constatação de que tudo isso não é muito. É muito pouco. É o mínimo, e não temos o mínimo.
Nas ruas, impossível ouvir fiu-fiu. É comum ver pessoas – sejam homens, sejam mulheres – andando sozinhas à noite, por todos os cantos, sem medo. À meia-noite, próximo a uma estação de metrô periférica, um japonês solitário fotografafa a iluminação do Réveillon em uma rua deserta, com uma câmera fotográfica cara, sem se importar nem com ela nem com a ameaça à sua vida. Claro, por que deveria?
Um brasileiro no Japão não consegue deixar de pensar como seria ter o mínimo em uma cidade maravilhosa como o Rio, em uma metrópole pujante como São Paulo, em uma capital solar como Recife.
O segredo do Japão parece estar não apenas na educação, panacéia vendida por 100% dos políticos e aplicada por nenhum, mas também na cultura. Penso em como encontramos aqui tudo o que esperamos encontrar: alta tecnologia, máquinas inteligentes, robôs, mas também aquilo que fazia parte dos livros de história, e bem vivo ainda, presente nas ruas. As cerimônias ancestrais, os templos milenares, os jardins intrincados e frágeis. O casamento entre moderno e antigo é apenas uma das muitas contradições que o Japão escancara, enquanto nós brasileiros tentamos esconder as nossas.
O Japão mostra que não é preciso esquecer o passado para viver o hoje e o amanhã. Pelo contrário, sugere que quem tem bagagem sólida caminha até mais longe, como a tartaruga que, carregando a casa nas costas, lentamente, vence a lebre e segue caminhando mesmo muito depois de o animal ter desistido. Uma ideia frontalmente oposta à glamurização do homem sem bagagem, sem história, que começa todos os dias uma nova vida, como se fosse folha imaculada.
Penso, numa rua fria de Quioto, se este não seria então um bom mantra para 2016. Não mais me livrar dos pequenos vícios, não fugir das inevitáveis rabugices e fracassos, das inevitáveis manhãs de preguiça e explosões de mau humor. Em vez disso, poder equilibrar cada vício com uma virtude, vivendo concretamente o que se é: imperfeição. Harmonizar opostos que pareciam inconciliáveis, de par em par. Tirar o medo para dançar. Viver em paixão e paz.

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