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No Carnaval a vida é vivida ao contrário. Por três dias invertemos papéis. Patrões servem empregados, tímidos se tornam devassos. A vida reservada, regrada, é subvertida. Assim, ao menos, era a tradição da Festa dos Loucos na Idade Média, em que o período servia de válvula de escape contra as (o)pressões de uma rígida ética cristã.

Conta-se que nos carnavais medievais as missas eram encerradas com zurros; monges travestiam-se de mulheres, recitavam versos indecentes, corriam e saltitavam durante o culto. Você pode achar o Carnaval de hoje – no Rio, em São Paulo, na Bahia – uma impressionante orgia, mas talvez sejamos hoje muito mais conservadores na exposição, enfrentamento e exorcismo de nossos demônios. Há, afinal, uma diferença nuclear entre um e outro Carnaval: enquanto o de hoje é feito em público para o público, num exibicionismo sem limites traduzido em abadás, blocos de rua e desfiles meticulosamente planejados, o Carnaval de outrora era sobretudo privado. Vivia-se o Carnaval. Dentro de casa, no culto, no trabalho, tudo era profanado. O rei do Carnaval não era o nosso Momo sorridente e bonachão. Era o Louco, o bobo da corte, cuja principal função era desnudar e expor o ridículo de nossas existências cruamente. Desmascarar a convenção farsesca do cotidiano, segundo a qual homens não usam saias e patrões comandam empregados.

Alguém já escreveu que às vezes o bobo salva o rei. É verdade. O rei, soberano altivo e orgulhoso, plenipotente mas submetido às mil etiquetas da corte, desespera-se imobilizado por normas e bajulações. O bobo, somente o bobo, ri-se de si e de tudo. O bobo sabe a verdade, sabe que somos ridículos. A verdade o enlouqueceu, nada menos do que a verdade.

A verdade enlouquece. Três dias de verdade – um Carnaval – e, na toada do bobo, nos vemos à beira do abismo. Três dias de verdade nua parece ser tudo o que podemos suportar sem sucumbir, no decorrer de um ano.

Todo Carnaval eu espero que o bobo lhe salve, e que você ouça serenamente a verdade antes de se fechar em sua clausura de monja reclusa. (E, por favor, até os monges dançam no Carnaval.)

Espero que o bobo nos salve, que o rei se torne bobo para que o bobo se torne rei. Mas estarei iludido, minha cara? Será possível que, por mais de três dias, a verdade prevaleça?

Eu acho engraçado que o Carnaval coincida com o Oscar. Como se coadunam nossos sonhos e fantasias. Onde haverá mais verdade, no cinema ou na avenida?

Dito de outro modo: vestidas ou despidas as fantasias, na quarta-feira desce o pano. O que você vai ser ao fim do Carnaval? A mudança ou a tradição?

A resposta é sempre a mesma: a tradição. Eu não sei se as pessoas mudam – se mudam consistentemente e por mais de três dias de Carnaval. Acho possível, mas nunca vi acontecer. Todos crescemos e nos podamos, todos nós aparamos arestas, aplicamos verniz à nossa figura e aos nossos planos. Mas a fundação da casa, onde os cupins roem os alicerces, onde o tempo faz a sua obra, essa nossa porção ao mesmo tempo invisível e onipresente, não muda (ou melhor,disso não tive testemunho).

Não importa quantas máscaras usemos, sob todas elas estará sempre a mesma pele. A beleza do Carnaval não é vestir a fantasia, mas tirá-la. Rasgar o pano. Expor a pele.

A pele pode ser mais ou menos firme e macia, mais ou menos clara ou escura, mas não se tornará, em tempo algum, outra pele a cobrir os músculos a cobrir os ossos a cobrir a essência. O que está dentro persiste, perdura, como uma jóia muito bem selada. Trouxeste a chave?, você me pergunta, soprando meus dedos rasgados na labuta. Não há chave. Só há uma minúscula fechadura por onde espio o brilho macio da tua jóia. Não há chave alguma. A jóia é intocável, e assim posso adorá-la.

Você mudou, eu mudei, mas tudo durou três dias. Eu não mudei, você não mudou. A água sem forma tem a forma de todas as coisas – porém líquida, sempre. Que forma o teu sangue, agora, adota? Estará mais gorda, mais magra, saudável, doente?

As coisas são o que são – perdoe o fatalismo, amiga -, e não conheço força capaz de mais do que aplicar duas ou três camadas de verniz. Acirram-se ou amaciam-se, é claro, virtudes e defeitos. O tempo erode a teimosia. Aprende-se a lidar melhor com o mistério, mas no fim o homem, como a água, amolda-se a si mesmo, e flui na sua correnteza particular.

Outro Carnaval passou. Na avenida, garis varrem restos de fantasias. Serpentina, confete, os escombros de incontáveis alegorias. Há uma verdade essencial e efêmera no Carnaval, como se inconscientemente escolhêssemos uma fantasia que fosse a nossa verdadeira cara. Como se a pele, exposta, gritasse. Revejo aquele filme do Fellini.

Agora tudo será diferente, eu prometo, alguém diz em algum canto do Carnaval.

Mas a mudança só dura três dias.