» Há algo de emburrecedor na rotina; ou melhor, nos confortos da rotina. Era assim que me sentia após cinco anos numa redação de jornal, editando cadernos de negócios e carreiras.

Depois de determinado tempo (que hoje parece ter encurtado), qualquer profissional dedicado desenvolve o misterioso dom de prever o futuro banal, o amanhã trivial.

Cinco anos, talvez um pouco menos, foram suficientes para que eu já imaginasse o que as fontes diriam sobre determinados assuntos, quais seriam os vícios nos textos dos repórteres, quais seriam as reações de leitores, colegas e chefes.

Mas fui sensato o suficiente para observar que o sucesso era arauto do fracasso, que aquilo era a medida de meu declínio. Mesmo em trabalhos considerados essencialmente intelectuais, como no jornalismo, podemos, sim, emburrecer – maquinescer. Em qualquer função muito especializada, e elas se multiplicam no direito, na medicina, na engenharia, na economia, na vida moderna, a tendência é estreitar horizontes com o tempo, não alargá-los.

Não há sabedoria no envelhecimento. Como disse o bobo ao Rei Lear, tragédia é ficar velho antes de ficar sábio. Ao contrário do senso comum, pois, a sabedoria não é direito dos velhos, mas privilégio.

 

No trabalho, aquele meu incômodo emburrecimento era o fruto estranho do sucesso. À medida que conhecemos profundamente uma rotina, ela passa a nos envolver como um colchão aveludado, convidando ao desfalecimento. A rotina: constelação de astros familiares em cujo centro gravita a mediocridade.

E a mediocridade, com sua força gravitacional esmagadora, atrai todos os seres vivos para o seu núcleo morno e apático.

Libertar-se demanda esforço constante. Diariamente, minuto a minuto, temos de permanecer alertas. Cada olhar baixo, cada cochilo, cada toque no controle remoto esconde um convite, uma passagem só de ida ao coração medíocre do mundo.

Nesta altura da vida, fui salvo pelos estudos, e hoje tento disseminar o antídoto aos meus alunos (que muitas vezes, para a minha tristeza, dão de ombros, olhos baixos sobre os celulares). Estudar, ler – ficção e teoria, conspiração e poesia – gera empuxo suficiente para nos libertar.

Sempre há tempo, mesmo para quem se julga perdido.

Devaneio. Um aluno levanta a mão:

– Mas não é mais feliz o medíocre?

Penso. Se a resposta for sim, de que vale Guimarães Rosa, onde guardo Machado de Assis, em que estante juntarão pó Raduan Nassar, Coetzee, Banville e Borges, Dalton Trevisan?

– Talvez – penso em voz alta. – Desde que você não tenha consciência da sua mediocridade. Nesse caso, como ser feliz? Desde que você nunca tenha experimentado o gozo de ser mais do que medíocre, que não saiba, nem por um segundo, o que poderia alcançar, quem poderia ser, como pai, filho, marido, amante, amigo, profissional, intelectual, artista, cidadão.

Às vezes, funciona. A luta se trava muito abaixo das trincheiras, nos buracos de formiga, nas reentrâncias dos cabelos. Só precisamos de um vislumbre.

Ou simplesmente saber: deve haver mais. «

 

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