arte: loro verz

»Dois mil e dezenove foi enganoso. Prometeu grandes realizações, puxou alguns tapetes, cedeu nalgumas prendas e, no fim, como sempre, encheu-me de promessas. Dois mil e dezenove prometeu que em dois mil e vinte vai se comportar melhor. 

Em dezembro de 2018 eu não estava muito longe de onde estou agora – digo, fisicamente. As semelhanças param por aí. Em todo o resto, parece que vivi a vida de outra pessoa, um outro Renato algo distante, cheio de planos apaixonados, a vislumbrar mil possibilidades excitantes e algo aterradoras para os meses que viriam. O ar à volta faiscava, e as correntes do Tejo, o sol frio de Lisboa, as natas, os cheiros, as longas caminhadas por alamedas históricas pareciam dizer mais do futuro do que do passado. Mas não: era mais passado, rindo disfarçado, como quem diz ele não aprende mesmo.

Eu não sabia nem o que deveria aprender. Por isso apanhei.

Agora estou no Porto, não muito longe de Lisboa. Entre as duas cidades, contudo, coloquei um Brasil inteiro de distância. Fui, vi, voltei, segui. Quando voltei, comecei a entender vagamente o que 2019 queria me dizer. E tome porrada, e tome cacetada, até aceitar a difícil lição. Não se tratava mais de desenhar o futuro a partir de anotações feitas nos cafés de Lisboa. Agora a fumaça dos fogos do Réveillon anterior já havia há muito se dispersado, e eu nem conseguia mais lembrar do que desejei para mim no fim de 2018 (embora possa jurar que todos os pedidos se realizaram). Em vez de me vestir de expectativas eu me despi de esperanças. Junho, julho, agosto, setembro foram bons meses para fincar os pés no chão.

Quer dizer, mais ou menos. No meu chão úmido e fértil sempre brotaram, como ervas daninhas, planos românticos. Eu carpi o terreno de todas as fantasias, prevendo que chegaria ao fim do ano pronto para assentar os tijolos de um certo materialismo pragmático que, ouço dizer, é indispensável  para a felicidade do homem moderno. Esse plano não deu certo, e me vi suspirando cercado de novas viçosas plantas e inutilidades. Mas ao menos entendi o que eu deveria aprender com as cacetadas de 2019, e isso já é um avanço.

Às vezes é só isso mesmo: saber do que precisa saber, do que precisa para viver, basta para tornar as coisas um pouco melhores.

Dois mil e dezenove não foi um ano fácil e para mim, no fundo dentro de mim, termina mais ou menos como começou, com dúvidas e apostas semelhantes. No entanto, quanta diferença! Dei mais dois passos em direção à montanha, cheguei mais perto do coração selvagem.

O que se transformou fui eu – no que me transformei, eu sou. E isso muda tudo.«

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