arte: loro verz

 

»Stalkear, verbo transitivo: quem stalkeia, stalkeia alguém. Sempre.

Stalkear, verbo intransitivo: o stalker eventualmente se perde, se acha e se basta no próprio stalkeamento. Já não faz muita diferença a quem espiona, que vidas acompanha, com que motivação. Um dia, sem nem perceber, terá feito da perseguição um fim em si mesma – uma perseguição, portanto, sem fim.

Já tive minhas curiosidades, mas decididamente não tenho vocação persecutória. Sou a vergonha dos stalkers; o calcanhar de Aquiles do sigilo. Apegado desde menino às palavras, aos jogos de palavra, ao reino surdo das palavras em estado de dicionário, perco logo o interesse no exercício de ver e não dizer, de sonhar e não contar, de não escrever.

Antes da internet era diferente. Quando Selena entrou na sala de aula, aos 14 anos de idade, me apaixonei à primeira vista. Quis saber tudo dela, de onde vinha, o que fazia, do que gostava, como, por quê. Não havia redes sociais, então o jeito rápido, e corajoso, era perguntar tudo isso para ela – ou, vá lá, para as amigas dela.

A terceira alternativa era mais lenta, e segura, ao jeito adolescente tímido. Eu podia observá-la. Stalkear à moda antiga. 

Comecei a prestar atenção às pequenas pistas. Os livros, os adereços, as manias. Sem poder me conter, contudo, um dia me rendi ao apelo das palavras: escrevi uma cartinha. Surpreendentemente – pois eu era muito feio, muito sem jeito, muito pirralho –, ela correspondeu.

Aprendi sobre ela olhando para ela e, principalmente, conversando com ela, nos meses que seguiram. Havia muito tempo, e pouca informação, disponíveis.

Hoje é o contrário: menos tempo, mais informação. Os stalkers conectados em banda larga levantam fichas ultradetalhadas. Competem entre si para ver quem é mais rápido e sagaz. Vasculham bancos de dados obscuros, grupos, comunidades, listam livros, filmes, discos (playlists, melhor dizendo), vídeos, fotos (nuas, até), lugares favoritados, pratos degustados, shows, medos, anseios, desejos. Um gigante de zeros e uns, imenso e faminto.

Fichada uma vítima, o jogo perde a graça, o mistério acaba. Passam à próxima. Stalkear, verbo intransitivo. 

Com isso, perde-se não só o tempo das coisas, mas também sua identidade. Quando eu queria saber quem era Selena, perguntava a ela – e não raro as respostas variavam dia a dia. Fosse hoje, stalkeada e recriada em minutos, através de milhares de fragmentos digitais, ela perderia o controle sobre a própria narrativa. Seria cristalizada como o avatar que resultou de trinta postagens, cem “check ins”, duzentas fotografias.

A violência do stalker é essa: sequestrar o direito de sua vítima rascunhar sua própria narrativa. De mudar, de mostrar só o que quer mostrar para aquela pessoa naquele instante. De ser humana, instável, falha, errada, torta e fugidia.

Quem persegue, afinal, só encontra o que procura.

Eu gostava mais de não saber o que buscar.«

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