arte: loro verz

 

»Aparentemente é um dos meus hábitos mais perturbadores. Colegas de trabalho às vezes me olham com pena; amigos tentam me convencer a repensar esse velho costume; namoradas analisam com desconfiança e horror, tentando alcançar a profundidade de minhas intenções.

A verdade é simples demais: eu gosto de almoçar sozinho. Aliás, de fazer um monte de coisas sozinho.

Na sexta-feira passada, na mesa de canto do meu quilo favorito, percebi-os novamente. Os olhares julgadores – entre a pena e o estranhamento. Primeiro, pensei que fosse algo no prato, na mesa, na roupa. Logo me dei conta de que eu era a única pessoa avulsa ali. Então era isso.

Não me importei – estou calejado. Voltei os olhos ao livro da vez e continuei lendo sossegadamente, entre uma garfada e outra. Sim, sei o que diz o mito: não leia durante as refeições porque o sangue vai do estômago para os olhos e isso prejudica a sua digestão. Pra mim, nunca fez o menor sentido. Meus olhos nem são tão grandes assim.

Sei também o que dizem os gurus: não leia durante as refeições porque sua consciência deve estar focada no presente, e o presente é alimentar-se. Quem se alimenta com consciência, alimenta-se melhor. Concordo, mas, diante de um frugal filé de frango com arroz e salada, nem faço questão de ter a consciência extremamente presente na mastigação.

Diabos, não me importo que ela viaje para Pasárgada, quando São Paulo for um pouco chata.

*

Começou assim, inocentemente, com esses almoços solitários, por pressão dos horários apertados entre faculdade e estágio. Mas não terminou aí. Os almoços logo se tornaram jantares; os jantares, bares. Então saí do território gastronômico e ousei no mundo da cultura: cinemas, teatros, shows. Sozinho.

As pessoas se apiedam de um cara sozinho num bar ou num show, mas eu me apiedo das pessoas presas a multidões desinteressantes. Claro que é ótimo fazer qualquer uma dessas coisas em boa companhia, mas a maior parte das pessoas eventualmente se torna refém dos amigos e dos amores. Eu vou ao cinema com eles e sem eles. Aliás, ir ao cinema sozinho eventualmente se tornou meu programa favorito.

Quando entro em uma sala vazia, avanço para as poltronas do fundo, sem pressa. Ao início da projeção me agito, cheio de expectativas, feito criança. Então, suspiro. Por duas horas, ao menos, não penso em mais nada. Não preciso de mais nada. No escuro, em silêncio, estou inteiro.«

 

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