arte: loro verz

 

»”Vontade de largar tudo, jogar tudo pro alto, ligar o foda-se.”

Virou expressão recorrente no papo de bar. Não sei a origem do cansaço existencial. Talvez seja geracional, com todos os amigos na travessia dos 30 aos 40. Mas: desconfio que não. Minha mãe já me alertou de que o intervalo entre os 30 e os 50 são os melhores da vida, e ainda não tive motivos para duvidar disso.

Talvez seja o espírito do tempo, então. Não dos 30 anos, mas do tempo social: um cansaço de redes sociais, aplicativos de paquera, notícias incessantes sobre tudo – e frequentemente falsas –, céus sem estrelas, hiperconsumismo e poluição. Uma inédita mistura de alta ansiedade e tédio. As rotas do Waze, constantemente recalculadas no meio do trajeto.

Talvez, por fim, seja circunstancial. É Temer, é Lula, é Bolsonaro, é Ciro, é Marina, é o tema da última grande polêmica ou da última grande tragédia: assassinato, legítima defesa, discurso de ódio, palavras, palavras, palavras pesadas que pesam sobre nós.

Tudo muito agressivo. No sinal fechado, ontem, um pai gritava com a criança – ainda que acreditasse em seus motivos, havia ali qualquer coisa injustificável. A escalada da violência é de ambos os lados. A resposta à agressividade é agressiva. “Jogar tudo para o alto, ligar o foda-se”; dançar, chapar ou transar furiosamente. Combater o fogo com mais fogo.

Olho por olho e dente por dente, os desdentados já não enxergam nada.

Sinto o mesmo cansaço dos amigos, claro, e às vezes a mesma vontade de combatê-lo com morfina. Ou gasolina. Mas como nem uma nem outra coisa são de minha personalidade, resisto. Lembro: aos 12 anos de idade, fui salvo pela poesia.

Duas décadas depois, eu espalho a palavra. Talvez a poesia nos salve, mais uma vez, se mantivermos os olhos atentos. Se não desviarmos os olhos quando ela nos tocar. Se olharmos fixamente no centro dela, na retina que flutua.

Ela, e só ela. O amor, e só o amor. Quem sabe, brincando, fazem novo Carnaval em nossas vidas.«

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