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arte: loro verz

»Não só o corpo envelhece; envelhece, principalmente, a cabeça.

Correndo tudo conforme o esperado, por Deus, é lá pelos 30 anos que o corpo dá ligeiros sinais de hesitação. Para diante da escada e mede (o corpo aprende a medir tudo). Será? Pensa nos duzentos passos até a padaria e pondera. Vou? Olha para cima, olha para os lados, olha para baixo onde antes apenas avançava. Onde antes era uma máquina de guerra, um encouraçado disposto a palmilhar campos minados e abismos, agora, avalia.

O corpo aos 30 descobre as partes do corpo que eram até então mistério: a diferença entre cervical e lombar, o nome das primeiras articulações. Mas não é só tristeza e queixa: há beleza. O corpo aos 30 anos começa a se conhecer melhor. Aqui eu vou, com certeza. Ali, melhor não. Hoje prefiro ficar em casa – já sei o que acontece depois de uma noite mal dormida. Sabe sim separar o joio do trigo e, pela primeira vez, não comer o joio (enfim!) – essa erva que só parece existir em ditado bíblico. Sabe semear o trigo.

Pois é só aos 30 anos que começamos a envelhecer de verdade. Até então a vida era nascer e crescer, conquistar e fortificar. As células se multiplicando furiosamente, a orquestra dos órgãos afinando suas notas. Cérebro e coração, centro de todas as coisas, escrevendo suas cartilhas. Não há envelhecimento antes dos 30, apenas um crescer sem fim, com um pé de feijão gigante no horizonte, furando as nuvens.

Mas não é apenas o corpo que envelhece; envelhece, principalmente, a cabeça. Ocupados demais com as articulações e hérnias, com pilates e ioga, os amigos travam guerra com os corpos sem saber que é nas ideias que o envelhecimento dói mais.

É preciso abrir a cabeça para um novo mundo, um mundo que ainda não tem 30 anos e cujos ruídos abafamos. Eu sei, é difícil desapegar das velhas ideias, que nos parecem ainda tão nobres, como é difícil para pulmões e pernas subir sete andares.

Acreditávamos ainda em privacidade, com nossos gibis pornográficos ocultos e corpos cobertos de timidez. Acreditávamos na presença do outro, nas palmas das mãos que envergonhados batíamos diante das casas da vizinhança em busca de amigos para uma tarde – ou uma vida. Acreditávamos na poesia do próprio punho em promessas de amor. Acreditávamos nos sabores mais especiais: um brinquedo, um doce, um copo de refrigerante que só nas festas se encontravam.

Tínhamos, por fim, uma gratidão terna aos amigos e aos professores que nos orientavam, quando crescer parecia tão mais difícil, mesmo para um garoto classe média, sob a sombra da inflação, da desinformação e da desconexão.

Mas essas ideias, amigos, são ideias velhas. É preciso abrir a janela; ligar os aparelhos, aumentar o brilho da tela. Deixar o vento entrar.«

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