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arte: loro verz

»Nunca tive o sonho de ser milionário – que dirá bilionário, palavra que há vinte anos nem fazia parte do noticiário. Mesmo. Já joguei algumas vezes na Mega-Sena, é claro, como típico brasileiro. Coisa casual: andando pela rua, esperando o ônibus que tarda, o amigo que atrasa, simplesmente vagando, entrava na casa lotérica no meio do caminho e arriscava quatro ou cinco reais. Então sonhava o que faria, e por quem, com o dinheiro que (não) receberia.

Na verdade, isso tem mais a ver com uma memória afetiva do que com meu apetite pelo jogo. A lembrança de minha mãe trazendo as filipetas da loteria para que preenchêssemos – seus filhos ainda crianças – com nossos seis números mágicos. Para uma criança, era um momento de grande solenidade: a confiança materna depositada cegamente sobre nós. Escolham seis números, quaisquer números, e quem sabe ganhamos milhões. Acho que alguém chegou a acertar quatro, uma vez, mas o prêmio foi especialmente esquálido.

Minha mãe teve, por um tempo, esse hábito de apostar na Sena. Eventualmente, desistiu. A verdade é que à medida que os filhos cresciam e se arrumavam na vida, com seus próprios trabalhos, seus próprios tetos e boletos, a vontade de ser milionária arrefecia. Desconfio, aliás, que nunca quis ser realmente milionária. Só queria, coitada, mãe coragem com três rebentos e um salário modesto, não precisar pensar em cheques especiais, cartões de crédito, promissórias e dívidas. Esquecer o lápis com que fazia as contas do mês. Nunca fechavam.

Talvez esteja no sangue, essa modestíssima ambição material. A meta era: um teto, nenhuma dívida, os livros que quiser, os filmes que quiser, os shows que quiser. E uma viagem de tempos em tempos – pouco importava o destino. Pronto, bastaria. (Até mesmo o carro, o desejo de um veículo confortabilíssimo e vistoso, perdeu seu gás com o tempo.)

Um dia, sem surpresa, sem alarde, percebemos que já tínhamos isso tudo. Todo o pacote conforto básico. E sossegamos. Sossegamos?

As ambições, é claro, persistem, martelam o estômago por dentro. Mas não são mais tão palpáveis. O desassossego, desde sempre, era artístico, intelectual. Ela querendo pintar mais, e melhor, eu querendo escrever mais, e melhor. Ela querendo estudar fotografia, eu, cinema. Aprender mais sobre tudo, expandir horizontes, dar vazão à vida interior, tão mais vasta que os 50 metros quadrados de casa.

É com esse espírito que pasmo diante da notícia de que oito homens, seis norte-americanos, um mexicano, um espanhol, têm, juntos, mais dinheiro do que 3,6 bilhões de pessoas – a metade mais pobre do planeta.

Leio e releio, tento entender. Eu, que nunca quis lugar nesse clube, me pergunto o que seus membros pensam disso. São os campeões do mundo,  ídolos? Ou, no silêncio da noite estrelada, haverá uma ponta de incômodo diante dessa riqueza obscena? Ou ainda: será que a riqueza nunca é obscena? O dinheiro emplastra todas as dores da alma?

No fundo acho que há algo constrangedor em ter tanto dinheiro. Numa conta burra, imagino que cada homem ali tem mais dinheiro, sozinho, do que 450 milhões de pessoas somadas. Um homem mais rico do que o Brasil inteiro! Talvez me desesperasse. Talvez quisesse doar quase tudo para me sentir aliviado e, com um punhado de dólares, seguir a vida. Dar-se um salário de vinte, trinta mil reais mensais, por toda a vida, já não bastaria para viver sem preocupações? É claro que sim. E isso não chega nem perto de arranhar a quantia de um bilhão de dinheiros ao longo de cem anos (para comparar: o mais rico do mundo, Bill Gates, tem uns R$ 240 bilhões à disposição hoje). Em um mundo que diviniza o dinheiro, são deuses. Verdadeiros deuses, de carne e osso, jatinhos e joias, entre nós. Deuses que são admirados, temidos ou odiados por nós. Mas me pergunto: como os deuses se sentem?

Sou só humano, demasiadamente. É por isso que até posso ser um bom escritor, mas bilionário nunca serei.«  

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