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arte: loro verz

»O conselho está em todos os lugares, impresso, expresso, imperativo: seja você mesmo. Faça aquilo que tiver vontade de fazer. Seja feliz.

Sorrio. Ser você mesmo em geral significa: escute a mim, reverencie a minha sabedoria. Seja você mesmo e me obedeça sem teimosia.

Todos os que dizem seja você mesmo têm sua própria receita de você mesmo. Na publicidade animada por saltos de pára-quedas, rodopios sob o sol e mergulhos plasticamente perfeitos em mares translúcidos, ser você mesmo significa parcelar um carro aventureiro em trinta e seis vezes no boleto. Ou usar uma pasta dental que promete dentes perfeitos. Seja você mesmo, use Colgate.

A esposa que diz faça o que te faz feliz pensa faça o que me faz feliz ou seja, compre-me um presentinho inesperado, surpreenda-me com uma viagem, reserve um jantar romântico na sexta-feita.

O marido que diz faça o que bem quiser, sem pensar em mais nada, somente em você,  confia secretamente estar em primeiro lugar na lista de prioridades. Não entende a felicidade desatachada. Faça o que bem quiser, traga uma cerveja, me deixe jogar bola e mantenha a casa limpa e arrumada.

Os pais que dizem siga seus instintos, faça o que te fizer feliz, rezam silenciosamente para que você preste vestibular para direito, engenharia ou medicina – só em carreiras tradicionais, eles acreditam, é possível ser feliz. Repetem siga o seu coração, mas esperam que você não case com o barbudinho tatuado sem perspectiva de vida. Enfatizam: busque a sua felicidade, mas para tanto julgam imprescindível um emprego estável, casamento, filhos, família.

Os livros de auto-ajuda enfatizam a sua autonomia, mas receitam dez passos para a felicidade.

Os padres pregam o livre arbítrio antes de sacar do bolso a suprema cartilha.

Os gurus da Academia citam Platão e recomendam setenta tratados de filosofia.

Os novos gurus da academia montam treinos com cinquenta abdominais por dia.

Os nutricionistas dizem que se pode comer tudo, desde que não se coma nada proibido. Recomendam ovo, proíbem ovo, liberam a clara, mas não a gema, até que reabilitam a gema banida. Elogiam a comida da vovó e dizem que cada um é cada um e que para cada um há uma dieta específica. Siga qualquer uma, preferencialmente a que lhe foi prescrita.

E os poetas, que tudo veem e nada sabem, os poetas que assobiam, os poetas que deliram, os poetas não dizem o que fazer da vida. Apontam o céu, apenas, e o chão, e a pedra, e o peixe. E passarinham.«