arte: loro verz

“Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós” – Manoel de Barros.

 

Do amor sabem primeiro os corpos,  porque o entendimento do espírito é de lentidão. E comprovação. O espírito, com a pretensão de ter visto tudo, ouvido tudo, vivido mil vidas terrenas, atravessa o mundo com desencanto – enquanto o corpo treme.

O espírito não ouve, não cheira, não vê; sabe. Saber demais é um saber viciado. Um saber antes. Saber demais é desnecessidade: engaiolar passarinhos para comprovar ao corpo, limitado, que assim param de cantar.

O corpo treme diante da gaiola. O saber do espírito é vertical, tudoatravessa. Desce cem dias de bigorna em queda livre até rebentar dez mundos (no décimo, diz, vai descansar). O saber do espírito é vertical e solitário, é um nascer, crescer, desencarnar e renascer sabendo, sabendo. O espírito mede a vida em colherinhas de chá através dos tempos. O espírito escrutina, aguarda confirmação. Então comprova, irrefutável.

O corpo treme quando sabe, o espírito treme quando não sabe. Um está preocupado com viver, outro, com a razão. O espírito insone precisa ter ciência de tudo, enquanto a carne sabe fechar os olhos.

O saber dos pássaros é também assim. Você me ensina a ser pássaro, ouvir a asa ansiar pela figueira. Descansar no braço da figueira; aninhar. Eu também te ensino. O corpo não sabe muito, mesmo sabendo tudo o que é preciso: segue pela vida, a sua única vida, cercado de espanto; deixar-se na cama desarrumada, atravessar a rua às sete da manhã, chutar pedrinhas coloridas, perfumar de café, plantar expectativas na terra úmida, aguardar sinais. A qualquer momento a vida do corpo acaba.

Quem não vive, não treme; descobrir a vida é estar vivo, mostrar ao corpo coisas que só a alma tocavam. Assim estar diante de uma bailarina, na segunda fileira da plateia, tentando adivinhar o próximo passo. Não saber. Esquerda? Direita? Subitamente ela vai é pra cima, dechuvisca o chão e orvalha o céu. Descobrir.

Do lado da bailarina o corpo também treme, treme fingindo que não sabe, treme antes do espírito entender-comprovar por que da segunda fileira uns olhos ternos, uns olhos sem jeito, passarinham.

O balé tímido e desajeitado das retinas curioseia a bailarina, que desconcentra. Olhos baixos, às vezes se envergonha achando que é tudo mentira, que a vida fora do palco é a grande ilusão. O poeta promete que não: É tudo sonho quando se dá a mão ao sonho, é tudo pedra quando se dá a mão à pedra (e assim vai).

Ele estende a mão. “Não te acabes”, diz, “enquanto não me descobres“.

No mar os peixes se deixam correntezas, menina. No ar, nadam por nós. Aperta os olhos e vê. E sê: peixe da terra, fora do cardume, atravessando as certezas. A beleza não está na razão. A coisa mais fina do mundo é o sentimento.

[Quando o corpo fica grande o mundo fica pequeno. A menina duvida de tudo porque se acha minúscula na imensidão do palco. Seu espírito olha para o céu. No palco cabem os dez mundos. Seu corpo, contudo, não vê. Palpita, procurando aquelas retinas.

Então ela está viva.]

Da cadeira o poeta acena, assina seu compromisso com borboletas de papel e cartas de amor. Estende a mão pra dar carne àquilo que o espírito demora a apreender. Não entende carne-sentimento, corpo-sentimento, palpitações e calafrios, tremores e mansidões. A sabedoria de uma face que ruboriza.

De tudo o espírito parece saber mais, mas do amor é o corpo que entende. Porque amor não se sabe, aceita-se,  acolhe-se. O corpo, que até ontem nada de nada sabia, de repentemente adquire toda a consciência ao mesmo tempo. Mil anos de sabedoria em três segundos. Enlouquece de febre, avermelha, alucina. Tem um saber horizontal que se espraia como mar tateando cada metro de costa. Os corpos, de par em par, se entendem como areia e mar.

O mar também treme, porque é corpo, e não espírito; espírito são as coisas do céu, as coisas razoáveis, as coisas doutas que a ninguém afogam.

O mar assusta porque é imensidão sem fim pra quem não sabe corponavegar. Tatear o mar sem pressa, descobri-lo.

Os poetas conhecem meios. Conhecem gentes que vivem – verdadeiramente vivem! – tateando mares. Par em par.

Gentes de espíritos imensos e corpos tímidos, que afinal compreendem, com o coração, coisas das quais não se consegue falar.

 

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