arte: loro verz

 

O passarinho caiu aos meus pés, inerte. Olhei para cima. O jequitibá, impassível, erguia-se a quase vinte metros de altura. O vento tremulava seus galhos.

Tremulava também o passarinho, já morto. Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando – isso aprendi com Ana Terra. Deus nos assopra lá e cá, testando nossas bússolas.

O vento agrega e destrói: reúne o pó sobre a mesa de casa e também o dissipa. É disso que somos feitos, daquele mesmo pó que varro incessantemente dos cantos da casa envidraçada.

Eu ouço o vento, mas não ouço mais o passarinho. O que o terá matado? O homem, a natureza? Todas as coisas vivas são frágeis: uma flor de inverno, uma pessoa, um passarinho. Para morrer basta estar vivo, mas para viver são precisas tantas coisas. Sempre é preciso mais.

[Asas, se você for um passarinho. Ar, água, terra e ouvidos que admirem o seu canto.]

Ouço o vento chiar, rodopiando os barulhos da cidade à minha volta. Os carros aceleram e freiam, as pessoas andam de olhos baixos, vidrados em telas iluminadas, a louça dos restaurantes e padarias tilinta e lasca, as rodas dos carrinhos de bebê se chocam contra buracos na calçada, as mães afoitas falam rápido. Em algum lugar alguém grita – há sempre um grito ecoando na cidade.

Mas não ouço aquele passarinho morto nem nenhum outro passarinho em nenhum outro canto da cidade. Estarão de luto, os passarinhos? Para viver são precisas muitas coisas – inclusive ouvidos. Mas quem ouve o que tem a dizer um passarinho? Este aqui pode ter morrido de desatenção.

Agora tecemos loas aos passarinhos. Sinto uma ternura imensa por ele, por suas penas acobreadas, desgrenhadas. Pelo seu bico retilíneo e suas patinhas tortas. Pelo seu sonho de passarinho eu sinto ternura, sua vontade de cantar e ser ouvido. Que outro propósito tem um passarinho?

Morreu de silêncio, no barulho da cidade. De inanição, de poesia.

Pego-o em minhas mãos. Embalo-o por um instante. Está morno ainda. Penso nas honras dos funerais dos passarinhos. Volto para casa melancólico e me ajoelho no jardim para cavar uma pequena cova de quinze centímetros.

Eu tinha planos de ir ao café, àquela hora, naquela manhã, e de terminar uma carta impossível. João está na Argentina, Maria foi morar no Reino Unido, Sofia se distanciou mais do que todos, mesmo sendo minha vizinha. Mesmo quem fica, parte. Invariavelmente. Basta uma brisa de nada, basta o rodízio das estações.

Eu tinha outros planos, mas ventava muito. Sem aviso, me caiu um passarinho.

 

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Meu romance, Febre, você encontra aqui. 

Um conto fantástico: A guerra das torres.

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