arte: loro verz

Quando criança, durante uma brincadeira qualquer, danifiquei a pintura da parede da sala de casa. Fiquei profundamente consternado com aquilo, envergonhado e com medo das terríveis consequências daquele descuido.

A felicidade indizível se converte em luto num segundo. Eu brincava feliz. A vida muda tão rapidamente. As sutilezas da vida são bonitas: um farfalhar de vento, um olhar descuidado, um ato falho, uma palavra, uma coincidência inexplicável, um perfume que remete à brisa dos litorais de meus doze anos. Mas os grandes marcos da vida não se prestam a sutilezas: são brutos como um atropelamento, um infarto, uma gravidez, um apaixonamento. Morte, vida, amor, os motes mais antigos são, ainda, os mais surpreendentes.

Para me livrar do problema, àquela época, decidi dormir. Como se o sonho fosse a realidade e a realidade fosse o sonho, esperava despertar em outra realidade, num mundo em que minha brincadeira não tivesse resultado naquele pequeno desastre doméstico (sob as lentes da infância, o pequeno é sem tamanho).

Acordei no colo de meu pai. Era outra realidade? Não. Imediatamente ele quis saber o que havia acontecido.

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Era difícil falar, palavra a palavra, sílaba a sílaba, sons e silêncio. As palavras têm tanto poder. Se eu verbalizasse aquele ato desastrado, antes fronteiriço com o sonho, rente à fantasia, tangencial à possibilidade, tudo ganharia carne. A carne suculenta e dúbia das palavras. E, ganhando carne, se presentificaria diante de mim, imperioso, impetuoso, inescapável.

Era como se, até não falarmos sobre a horrível mancha na parede, a pintura continuasse branca e virgem.

Cresci e percebi tantas vezes o mesmo padrão. A criança que não confessa os medos. A mulher que não fala das agressões para que as agressões não existam. O assediado que oculta o assédio. O funcionário humilhado, o amigo humilhado, a nação humilhada.

Um ato de fala é um ato. Ainda que nem tudo se resolva pela fala, nada se resolve pelo silêncio. Nem mesmo aquilo que deixamos fermentar, azedar, solar e morrer. Pois fica conosco, relutantemente, como um cadáver ambíguo, até surgir a espada do verbo libertador.

Falar sobre o racismo no futebol e no mundo pode não acabar com o racismo, por exemplo – nem no futebol nem no mundo. Mas silenciar sobre ele certamente perpetuará as manchas na parede da nação.

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Um conto fantástico: A guerra das torres.

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