arte: loro verz

»Aos poucos as coisas parecem melhorar – ou, ao menos parar de piorar. Eu sempre fui otimista, você sabe. Dentro de mim o sino sempre esteve a bater um monótono tudo vai ficar bem. E bem ficava. Talvez não durante, mas certamente depois. Sim. Minha cota de lágrimas só pareceu pequena porque as disfarcei no cinema, na madrugada. Mas antes mesmo que a pele secasse, o sino voltava a ressoar, repetindo que tudo ficaria bem. Justamente por isso tatuei o grande poema que pergunta: ok, e daí?

É preciso haver mais.

Precisei visitar uma porção de refúgios nestes últimos meses. Ou seriam anos? Sempre. A tarefa mais importante da vida é saber cultivar refúgios. É ser um pouco poeta, um pouco engenheiro; um pouco arquiteto, um pouco jardineiro; um pouco mágico. Identificar um (potencial) refúgio para então, zelosamente, empilhar as melhores pedras, afastar o pó, decorar as paredes.

Para construir um refúgio é preciso ter muita atenção, mas não necessariamente tempo. É verdade que os refúgios mais banais são erguidos ao longo de muitos e muitos anos. Décadas sob o mesmo teto – ou nos mesmos braços. Geração após geração, um mesmo jardim. Mas os refúgios realmente extraordinários para onde me socorri nestes tempos sombrios foram construídos em instantes. São refúgios-relâmpago que no entanto perduram no tempo.

Acalmo o peito arfante nas memórias dos lugares por onde passei sem me demorar. São primeiros beijos, primeiros abraços e faíscas e contatos. Algumas risadas na mesa de bar, cheia de amigos. Uma dança estranha. Mais: o instante estroboscópico de um passo estranho em uma dança estranha, na pista lotada. E ela rir e não se importar.

O dia em que o meu primeiro cachorro chegou em casa, a noite em que andei sozinho pela praia estrelada, o pôr do sol na ponte férrea. A fenda florida na montanha, as pedras de sal do mar, o poema que me deram, os versos que li em voz alta, a renda sob a roupa dela, minha primeira embriaguez. Os pés da bailarina. O espetáculo.

Viver é construir refúgios para que a vida possa ser efetivamente plena, mesmo que efêmera. Tenho-os muitos. Visito-os sempre (às vezes chamam por mim e não estou, fujo-me a um desses refúgios por dias inteiros). Lá, espero que possamos ser mais do que isto, formalidades e preocupações, contas, somas, divisões. Muito mais, muito além.

Mais que normal, mais que bem.«

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