arte: loro verz

»Estou em busca de uma pessoa feliz. 

Não é só a pandemia – como se isso fosse pouco. Não é só a crise climática – como se não fosse o fim. É isso e ainda a política, a ignorância, o rancor. É isso e também a solidão, o burnout, as redes e telas, a falta de perspectiva. Ansiedade. Uma estranha e persistente estafa.

Não conheço mais pessoas felizes. Subitamente, a claridade do deserto parte meu sono como um raio. Onde está a silenciosa satisfação de viver? Onde se escondem os gerânios e as borboletas? Por onde andam as pessoas felizes, aquelas dos comerciais de margarina e dos parques lotados no verão?

Saio às ruas com minha lanterna de mão. Os resilientes tornaram-se resignados, os resignados fazem força para sair da cama sem um longa e lívida lamúria. A gente comum, como eu, cata os cacos pelo chão, dia após dia. Perdemos o sono, emagrecemos, convivemos com o cansaço e o abandono – às vezes cínicos como cães, às vezes famélicos como ratos. E agora?

Terá sido assim no pós-guerra? Os jovens escritores entusiasmados seguiam para as trincheiras ávidos por uma experiência humana crua, palpável. A carne das coisas. Não precisaram de muito tempo para que o romantismo cedesse à desilusão. Não há senão horror na guerra. Não há glórias.

Vivemos tempos de guerra. Entrincheirados, procuramos o inimigo, que está em toda a parte.

O inimigo é o tempo, a gravidade, a própria atmosfera.

Faz tempo que não conheço uma pessoa feliz-feliz: transbordante dessa matéria inefável que é o contentamento.

As pessoas seguem, apenas. Tudo vai, tudo vem. Vamos indo. Mais valia um tango argentino – ou um fado português.

Encurralado, chamo as forças aliadas. Somos tantos. Somos muitos. Basta apenas que venham de braços abertos: poetas e profetas, proletários e vagabundos. Não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.«

 

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