arte: loro verz

»No rádio, uma voz feminina, debochada, ridiculariza os males “do politicamente correto”. É uma humorista, depois descubro. Incomodada com as críticas ao humor que pratica, que ela própria imagina ser crítico, ácido e muito “incorreto”. Então, encarna a grande especialista sobre o tema e se põe a opinar sobre.

OK, opinar, todo mundo pode. Pode até opinar sobre o que desconhece? Pode – só não espere que eu permaneça na sala. Na minha casa, não pode. Despótico? Temos pouco tempo a perder, amigo. Os 40 estão logo ali, os livros se acumulam na estante e a louça, na pia. Opinião desinformada é um grande dreno de tempo. Tempo que, ao contrário da opinião desinformada, faz falta.

A humorista-comentarista logo passa da crítica ao “politicamente correto”, essa besta fera que destruiu o Brasil próspero dos anos 1960, para um abacaxi mais espinhoso. Quer falar sobre discurso de ódio. Aliás, na opinião dela, tal coisa não existe. É uma fantasia: insiste ela, febrilmente. Não existe discurso de ódio, ou melhor, os pregadores do ódio não fazem mal a ninguém. Deixe-os ostentar seus preconceitos.

A pessoa não se abala com me estado de choque e prossegue. Palavras não são ações, só ações podem ferir alguém, simplifica, triunfal. E todo argumento simplificativo e totalizante, sabemos, tem encontrado enorme sucesso no Brasil 2019. Então ela repete a mesma ladainha por três, quatro, cinco vezes, no intervalo de uma hora. Talvez esteja esperando que, de tanto repeti-la, torne-se verdade.

 A comentarista insiste em sua tese com os argumentos mais simplórios, na linha do: dizer que x é um bosta e podia se matar não é tão ruim como dar um tiro em x, não é mesmo?

Claro que ela está certa. Mas claro que é, também, de uma desonestidade colossal. Melhor a ofensa verbal do que física. Mas entre propagar o ódio e tirar a vida de alguém, não há nada?

Fico francamente boquiaberto com a defesa apaixonada dessa gente que acha que o mundo se divide entre exame de corpo de delito e mimimi. E só. Se não está no laudo do IML, é frescura. Racismo, homofobia, machismo etc. só podem existir na materialidade de hematomas e cicatrizes.

Os entrevistadores, ingênuos ou preguiçosos, ou concordam ou se calam diante do horror. Fico duplamente espantado. Os entrevistados são fascistas fora do armário; os entrevistadores, incapazes de desarticular falácias grotescas. Assim, dissemina-se mais uma estupidez com cara de argumento “bem sacado”.

Milita pelo direito de odiar livremente as pessoas. Não silenciosamente: livremente. Ruidosa, ofensiva e agressivamente, na praça pública, na internet, aos gritos – porque gritos, claro, não machucam ninguém. Os militantes do ódio chamam a boa educação de “censura politicamente correta” e só querem, mesmo, aplausos enquanto o circo (dos outros) pega fogo.

No fundo, ela está dizendo o seguinte: toda vez que alguém me repreende por dizer algo, está violando a minha liberdade. Diz isso com imenso regozijo, como se tivesse descoberto algo muito novo. Não sabe que muito papel já foi impresso para esta questão, e que sim: temos de ser intolerantes com os intolerantes se quisermos construir uma sociedade tolerante. É o famoso paradoxo da tolerância.

No fundo, acho que a humorista só estava irritada porque ninguém ria de suas piadas. Mas, depois de ouvi-la por mais de uma hora, acho que a culpa não é do “politicamente correto”, prezada senhora. Talvez você precise apenas melhorar as suas piadas.

É isso o que estamos todos tentando fazer: melhorar.«

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