arte: loro verz
As pessoas temem aquilo que elas não conhecem. Por isso, talvez, temos medo de mais e mais coisas – de ataques terroristas a impotência sexual, de clonagem de cartões de crédito a picadas de mosquitos transmissores da zika. Ouvimos falar de tudo sem conhecer da missa a metade. O latim, decepado ao meio, intimida. Parece bruxaria.
Na época em que me mudei para São Paulo, já há muitos anos, minha família me ligava constantemente lá de Curitiba para perguntar sobre a minha segurança. Se chovia, queriam saber se meu bairro inundara (e pior que inundava sempre, mas, depois que a gente conhece, aprende a se virar sob sol e sob chuva). Se tinha crime no noticiário, queriam saber se eu sobrevivera.
Um dia, quando minha irmã veio me visitar, baixei o vidro do carro para me refrescar – embora fosse noite, janeiro era quente – e ela horrorizada professou: mas como você tem coragem de andar de vidro aberto em São Paulo? De noite, ainda por cima!
Eu ri e expliquei que era normal. Aliás, que era perfeitamente seguro (bem, tão seguro quanto possível). Ela não acreditou muito, mas hoje, dez anos depois, está acostumada com a janela abaixada quando dirigimos pela capital.
Acho que, entendendo melhor, perdeu o medo – ou ao menos aprendeu a restringi-lo às situações em que parecia mais apropriado.
Outro dia, uma menina demonstrou espanto quando descobriu que meu carro não era blindado. Mais do que isso, respondi que eu nunca havia nem entrado num carro blindado. Aliás, chocava-me existirem, em uma cidade, carros blindados. Não sei se adiantou alguma coisa, acho que ela continuou com medo e eu continuei aos seus olhos irresponsável, ou muito pobre. Mas tenho certeza que, se ela andasse um par de dias comigo, no meu carro de lata ordinária, perderia o medo da guerra iminente que a sobressaltava.
No dia a dia de jornalista, de professor, de escritor, constantemente me deparo com ele, o medo. O medo de tudo e o medo de nada. Quando a internet e as redes sociais se popularizaram, parecia que o medo entraria em declínio em todo o mundo. Abriam-se afinal novas janelas para novos territórios, e agora, quando podemos ver a vida dos outros mais de perto, ouvir a voz dos outros, quase medir sua pulsação, nao deveríamos mais ter tanto medo. Era a utopia do tudo conhecer para nada mais temer.
Que nada. As janelas escancaradas, de onde poderíamos aproveitar para curtir a vasta paisagem, trouxeram o medo de tempestades, bichos peçonhentos, invasões. Multiplicaram, em correntes de ódio e ignorância voluntária (afinal, as janelas estão escancaradas), o medo.
A gente tem medo do desconhecido, mas tem ainda mais medo do mal conhecido. Do mistificado, do deturpado, do quebra-cabeças incompleto que se estende diante de nós enigmático, sem fácil solução. Para viver sem medo, seria preciso voltar a humanizar os discursos, entender os homens por trás dos memes, as mulheres além dos filtros e montagens. Assim, em estado de natureza, talvez o medo cessasse.
Para isso seria preciso não apenas conhecer, pois já conhecemos coisas demais. Seria necessário voltar a reconhecer o outro. Ali, do outro lado da janela. Do outro lado do nosso medo.