arte: loro verz

 

»Volto de mais uma longa caminhada. Costumo, sempre, andar com um caderninho a tiracolo, na ânsia de anotar, sem rigor, ideias fugidias. Não há lugar melhor do que as montanhas para pensar.

Tomo nota de tudo, revisito muitas vidas. A que foi e as que poderiam ser. Devaneio, mas, enquanto caminho, também tento me concentrar na meta do dia. Quando chego a ela, me espanto: um objetivo claramente concebido eventualmente se concretiza. É inevitável. Uma longa caminhada na serra deixa isso muito claro: você visualiza um certo pico, rocha, clareira, e pensa “até o fim do dia, preciso estar lá para armar acampamento“.

Acontece que o ponto imaginado, assim como os sonhos do dia a dia, os sonhos de toda uma vida, à primeira vista está fora de qualquer alcance razoável. Está fora do domínio dos sentidos – é um vago borrão no horizonte. A hipótese de alcançá-lo em cinco ou dez horas de jornada parece risível.

O fim do dia, contudo, salvo desastres, mostra sempre o inexorável. Mostra que a chegada é inevitável. Atingir o objetivo é inevitável, desde que você se tenha mantido persistente na trilha. Para os que se seguem em frente, sempre haverá: a chegada.

Não é assim, na vida? Lembro das montanhas abstratas que se ergueram aos meus olhos, nestes mais de 30 anos. Sair de Curitiba e tentar a sorte em São Paulo com apenas alguns tostões no bolso. Encarar partidas indesejadas, fossas, lutos. Quando meu pai morreu eu estava a caminho do Monte Roraima. Quando minha filha nasceu eu não ganhava nem um salário mínimo. As montanhas se elevam diante de nós como se a terra arqueasse seu dorso feito um gato, sem aviso. É preciso escalar o gato. Não com acrobacias, mas com constância. Seguir em frente. Seguir, se preciso, diferente. Mas seguir.

E, quando chegar, outra certeza é a gente olhar para trás e se maravilhar. Como é que eu, que estava lá, cheguei até aqui? Parecia impossível; parece, ainda, inacreditável. Um dos grandes prazeres da montanha é justamente o de olhar para trás, ao fim do dia, e se assombrar com a própria tenacidade.

Olhar para trás, mas não voltar atrás. A gente olha a mão ferida e lembra como foi duro um certo trecho. As pernas latejam, a pele queimada arde. As marcas da travessia estão por todo o corpo, e a mente as visita. Tudo bem visitá-las. Tudo bem também lembrar dos paraísos perdidos: um ponto de água cristalina, um cume do qual se viu o pôr do sol mais lindo. Isso faz parte.

Assim como faz parte pensar que amanhã talvez chova, talvez faça sol, talvez haja melhores vistas e paragens. Talvez aquela menina bonita me perceba. Tudo isso faz parte da caminhada – desde que se mantenha no devido lugar, ou seja, como parte da caminhada. Parte do movimento. Quem está na montanha, sabe: é preciso se movimentar, sempre, sem se ancorar nas trilhas que foram ou que virão. Só existe o seu pé agora, as suas bolhas neste momento. O vento que ventila sob as roupas pesadas e alivia a carga. A carga sobre as costas não pode ser dividida. É sua. E é agora.

E, na trilha em que cada um leva seu próprio peso, cada um segue em seu próprio ritmo. No caminho sempre vão os mais lentos e os mais rápidos. A passada muda, assim como a pisada. Uns escolhem um trecho mais inclinado, outros, menos; uns preferem pisar a terra, outros, a rocha. Ninguém anda exatamente do mesmo jeito, embora todos sigam mais ou menos para o mesmo destino. O rápido chega. O lento chega. O falante, o silencioso. Todo mundo chega, eventualmente, ao mesmo lugar – e, estando lá, realmente não faz muita diferença ter chegado antes ou depois.

Todos farão a mesma coisa, como todos fazem a mesma coisa, na vida: ao fim de um dia exaustivo, sentam-se e removem os calçados. Sentem o corpo tremer e aos poucos aquietar, enquanto esfria e combate as dores da caminhada.

Então, todos, sem exceção, olham para o céu e sorriem.

Eles olham para o céu e, sem falar uma só palavra, compreendem: o sentido da caminhada.«

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