arte: loro verz
»Sou uma espécie de carnívoro em recuperação. Ou melhor, em transição, pois não faço questão de recuperar nada. Anos atrás, era uma condição necessária que a refeição contivesse carne para que fosse, bem, uma refeição . Todos os dias, no almoço e no jantar, eu comia carne vermelha. Parecia muito natural. Nos tempos de penúria, comia patê barato e embutidos – ou apenas sonhava com um bife. Nos tempos de fartura, carne de primeira.
Mas hoje, só de escrever e reler essas palavras, sinto um embrulho no estômago. Ainda como carne de vaca (não tenho nenhuma simpatia pela expressão “proteína animal”),  é verdade, mas pouca: um hambúrguer por mês, talvez. Ou seja, não sou vegetariano, embora goste da ideia por muitas razões.
Eu brinco que, morando em Portugal, é mais fácil largar a carne vermelha. Com o câmbio atual, um corte nobre, tipo uma picanha, sai facilmente por mais de cento e vinte reais. E a qualidade não será a mesma da carne brasileira.
Mas não é só pela grana. É também pelo sofrimento, pelo aquecimento, pelo pasto.
***
Há cerca de quinze anos eu visitei o Pantanal pela primeira vez. Fui como repórter de um grande jornal para escrever uma matéria sobre turismo ecológico. Passei cerca de uma semana em estradas precárias e voadeiras que cortavam os muitos cursos d’água da região. Acordava cedo, logo antes do sol nascer, e dormia também cedo, exausto de lama e caminhada. Contente.
Foi a viagem mais marcante da minha vida. Lembro dos nasceres e dos pores do sol, quando uma impressionante revoada de pássaros riscava o céu multicolorido (azul, rosa, laranja, vermelho) e chilreava, trinava, gorjeava. Garganteava. Eu nunca vi nada tão vivo quanto o Pantanal. Nunca vi, em mais de duas dezenas de países, nada parecido com aquilo.
Uso sempre a mesma expressão quando me perguntam como é o Pantanal: uma explosão de vida.
Mas o Pantanal que eu conheci quinze anos atrás eu já não sei se ainda existe, não sei se meus filhos e netos poderão conhecê-lo. Temo. Nadei nos seus rios, entre jacarés e serpentes, escondi-me em seus arbustos, fui atacado por carrapatos e mosquitos e observei humildemente, de longe, sua majestade a onça pintada. Foram apenas sete dias (e depois mais sete, quando retornei para outro trabalho). Eu era um menino da cidade deslumbrado com o céu mais bonito que já vi, fascinado pela bicharada, fulminado pela explosão de vida.
Mas hoje as notícias se sucedem e meu coração aperta, apequenado.
***
Meu poeta favorito é pantaneiro: Manoel de Barros. Já morto, descansa em paz. Em uma entrevista ele fala com carinho do lugar, uma espécie de reino mágico em que estabeleceu a pedra fundamental da sua obra.
“Minha infância passei em uma fazenda no Pantanal. Nesse lugar o tempo era parado. Ou passava devagar que lesma. Às vezes a lesma chegava primeiro que o fim do dia.”
Agora um outro tempo chega ao Pantanal do tempo parado. Um tempo que não para, não para. Um tempo que atropela o passo da lesma e devora o mundo inteiro em chamas avermelhadas. Cobre os pores do sol e cala a passarada.
Um tempo que parece novo mas é muito antigo. O tempo do velho, do ultrapassado, ignorante.
Tempo de luto e tristezas. Tempo de desolação.«
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