arte: loro verz

»Eu era criança e tinha fascínio pelo mar. Passava as férias no litoral de Santa Catarina, em uma praia discreta e ainda escondida da grande especulação que viria. Às vezes tomava o ônibus desde Curitiba, em pleno inverno, e sozinho desembarcava no meio da estrada – a única parada possível. Caminhava por cinco ou seis quilômetros com a mochila surrada nas costas sem encontrar nada além de garoa triste e cães vadios. Sentia-me livre.

Na praia, a lenta passagem das horas não incomodava: diante do mar sem fim, com os pés plantados na areia, imaginava todas as coisas que poderiam surgir diante de mim– embora nada, de fato, acontecesse. Nenhuma bela garota, nenhum tesouro esquecido, nenhum navio pirata, nenhum manuscrito, nenhum vendaval. Nem o vendedor de picolés nem a barraca de pastéis; no inverno, só garoa e brisa, areia estufada e pedras escorregadias.

Mas tudo eu imaginava, então, e de certa forma isso bastava.

Hoje, quando vejo o adolescente na praia deserta e úmida, com os pés na areia e os olhos desancorados, estremeço de melancolia. Feito homem, se pudesse povoaria aquela cena de amigos e coreografias, cerveja e som. A tudo aquilo eu saturaria.

Mas o menino, não. O menino, que sabia ser menino do jeito que só ele poderia ser, sem se preocupar com os outros, com as expectativas dos outros, com as responsabilidades para com os outros, estava feliz. Mais que feliz: explodia por todos os cantos. Seu coração acelerava e desacelerava com a aproximação das marias farinhas, sua pele arrepiava com o sopro incessante do oceano, seus lábios contraíam ao toque do sal e da areia, seu estômago era fome e mais fome: excitação.

Ainda que no mundo inteiro não houvesse mais ninguém, estaria pleno. Não tinha nada, mas pensava em versos, rebobinava cem vezes a fita no walkman e gargalhava excitado com a possibilidade de ser, ele mesmo, um pedaço do mar. Um pedaço daquilo. Não tinha nada porque não precisava. Era parte de tudo. O menino e o mar.

É pena que o menino cresça e, cercado de responsabilidades, torne-se o adulto que sou. Há anos sem ver o mar, sem provar areia ou brisa.

A praia vazia é melancólica demais para suportar.

Hoje, quando volto à praia, quando volto àquela praia, não volto mais ao que eu era. Espero o sol, espero os banhistas e os ambulantes. Quando chove, ligo a TV. Não saio de casa. É tudo triste demais para suportar.

Não a praia,

não o mar:

eu.«