arte: loro verz

 

»Onde estará ela?

Há notícias de que deixou São Paulo para trás. Um amigo disse que a viu na França – mas isso foi no ano passado. Ou foi antes? Eu estive lá. Ela não estava mais.

Por onde será que anda? Na avenida Paulista, nos cafés de Pinheiros, em uma cachoeira afastada, enfronhada em casa? Será que chora? Será que passa bem?

Passo por todos os cantos da cidade, buscando-a. Meu ritmo é outro, eu sei. Começo todas as provas com pressa, saltando obstáculos, movido por um fogo indomável. É que, primeiro, sou animal. Disparo em todas as direções, velozmente, correndo pelo bosque até encontrar uma fonte de água fresca. Só então eu me demoro. Deito-me próximo à cachoeira, deixo o sol me secar.

Primeiro, corro. Depois, descanso (já não há nada a buscar, nenhum prêmio a conquistar). Então, novamente, preciso do movimento – mas, agora, de mãos dadas, em harmonia.

Não tive tempo de dar-lhe as mãos. Ou dei, desdei, redei, enredei, perdi. Perdi? Ainda não encontrei clareira à sombra da cachoeira, onde me quedar. Estou correndo de lá para cá, perguntando: e agora, onde ela está?

Sigo um rastro irregular de fotografias, testemunhos. Às vezes capto seu cheiro – muito, muito próximo. Seu cheiro está nas minhas mãos! Escrevo uma poesia, palavreio o aroma. Mas a dona daquele pescoço, a dona dos lábios, dos anéis e tatuagens, onde está? Se o senhor tivesse chegado há cinco minutos, o garçom comenta, talvez a tivesse encontrado. Cinco minutos! Cinco minutos, apenas.

Então, quando ela está? Em todos os lugares de que suspeito, ela já esteve. Só não agora. Só não está. Sua presença oceânica me toca em todas as fronteiras, em todos os meus instantes. Eu ainda estou úmido, mas ela não está mais lá. Corro e o vento me seca, enquanto procuro. Quando ela está?

Talvez ela seja uma dessas marinheiras com o mau hábito de se perder nos mares do passado, de empreender longas e inúteis viagens cruzando o oceano de ponta a ponta em busca do que foi e já não será. Talvez ela tenha por hábito revisitar cada aspecto da memória e desejar, e se culpar, e se lamentar. Talvez esteja à deriva num navio entre o agora e o passado, sem saber onde atracar.

Ou talvez seja apenas cautelosa, e assim se previna.

Eu apresso o passo em todas as direções, espalho a juba e rumorejo no ar. Sei o que ela teme, mas o meu espírito de fogo não queima, assim como sua água não me pode apagar.

Onde ela está, ou melhor, quando estará? Por um momento tocou meu braço e soube o que eu era: um lugar. Ancorou-se ali, esteve ali, no mesmo lugar e no mesmo momento que eu. Eu te ofereço, falou, a dádiva da minha presença. Respondi-lhe o mesmo. Um momento. Depois, abri o embrulho afoito, como quem volta à véspera dos melhores natais da infância, e a musa desmaterializou.

Atiço as chamas, duplico a lenha, mas: não posso correr por todas as partes e tempos atrás dela – assim, quem sabe, iríamos os dois naufragar.

Parei. É importante saber parar. Com as mãos nuas ergui um farol solitário onde o fogo, protegido das tempestades, brilha e protege os náufragos das escarpas e dos maremotos na escuridão. Quando for a hora, sua presença oceânica saberá de mim.

Nesse dia, ela virá. Sem eu procurar. Sem eu precisar me preocupar. Estarei surdo e calmo, paciente e pleno, quando ela chegar de pés descalços, com seu poder de palavra e seu poder de silêncio, envolta num manto de ternura. E me tocar com suas mãos de chuva.«

_____________________________________________

Chegou até aqui? Aproveite e siga Males Crônicos no Facebook.

Facebook do autor.

Twitter do autor.

_____________________________________________